Definição de tempo: perda de tempo
Definição de vida: tempo
Animus Narrandi
Sobre...
27.6.10
22.7.06
O Redentor
(Repórter): Como você se sendo herdeiro de uma dívida que cresce R$400.000,00 por dia?
(Empresário): Meu pai ousou crescer num país que sofre de inveja.
(Repórter 2): Dr. Otávio, o senhor vai declarar a falência das empresas de seu pai?
(Empresário): A falência da maior construtora do país não interessa a ninguém.
(Repórter 3): O que o senhor tem a dizer às 12.000 famílias que já pagaram e não receberam os apartamentos?
(Empresário): Que lutem por mim. Estamos todos no mesmo barco."
(Empresário): Meu pai ousou crescer num país que sofre de inveja.
(Repórter 2): Dr. Otávio, o senhor vai declarar a falência das empresas de seu pai?
(Empresário): A falência da maior construtora do país não interessa a ninguém.
(Repórter 3): O que o senhor tem a dizer às 12.000 famílias que já pagaram e não receberam os apartamentos?
(Empresário): Que lutem por mim. Estamos todos no mesmo barco."
27.1.05
Walter Salles Jr - Abril Despedaçado (2001)
Para livrar-se dos caminhos traçados pelos que vieram antes dos que vieram antes, foi necessário sacrificar uma vida.
Minha mãe sempre dizia que Deus não dá pra gente um fardo maior do que o que a gente pode carregar. Mentira.
Em terra de cego, quem tem um olho todo mundo pensa que é doido.
5.12.04
Visões da Vida
No muito bom livro "Por um Fio", do médico Drauzio Varella, podemos ter acesso a depoimentos de pessoas que sabem que vão morrer em breve, e que portanto emitem juízos pessimistas e, como negar?, realistas sobre a vida. Não há máscaras nem tergiversações. É tudo muito sóbrio.
Dois deles são emblemáticos, ambos proferidos por pacientes terminais.
De um espanhol de mais de oitenta anos, ex-combatente da Guerra Civil Espanhola, portador de um câncer de laringe:
"Perdi meus pais, minha companheira de cinqüenta e seis anos de casamento, dois irmãos mais velhos na guerra e meu filho do meio num desastre. A gente não encontra explicação para essas tragédias, mas com o tempo se conforma, na esperança de que ainda haverá de entender o verdadeiro significado delas. Precisei ficar velho para compreender que esse dia jamais chegará, porque a vida não tem sentido nenhum; nós é que insistimos diariamente em atribuir um significado a ela. "
De um pedreiro português aposentado que perdeu a esposa (por câncer) e não tinha filhos:
"Meu avô dizia que viver é como percorrer um caminho num desfiladeiro de onde partem tiros disparados a esmo. As balas podem acertar qualquer um, mas derrubam com mais freqüência os velhos, as crianças pequenas e os debilitados. Quando um corpo cai, alvejado, os outros são obrigados a se desviar e a continuar em frente, porque a ordem é seguir sempre em frente, mesmo sem saber aonde o caminho nos levará."
Dois deles são emblemáticos, ambos proferidos por pacientes terminais.
De um espanhol de mais de oitenta anos, ex-combatente da Guerra Civil Espanhola, portador de um câncer de laringe:
"Perdi meus pais, minha companheira de cinqüenta e seis anos de casamento, dois irmãos mais velhos na guerra e meu filho do meio num desastre. A gente não encontra explicação para essas tragédias, mas com o tempo se conforma, na esperança de que ainda haverá de entender o verdadeiro significado delas. Precisei ficar velho para compreender que esse dia jamais chegará, porque a vida não tem sentido nenhum; nós é que insistimos diariamente em atribuir um significado a ela. "
De um pedreiro português aposentado que perdeu a esposa (por câncer) e não tinha filhos:
"Meu avô dizia que viver é como percorrer um caminho num desfiladeiro de onde partem tiros disparados a esmo. As balas podem acertar qualquer um, mas derrubam com mais freqüência os velhos, as crianças pequenas e os debilitados. Quando um corpo cai, alvejado, os outros são obrigados a se desviar e a continuar em frente, porque a ordem é seguir sempre em frente, mesmo sem saber aonde o caminho nos levará."
Dois possíveis exemplos da chamada "Anxiety of Influence"
O conceito é de Harold Bloom. Os sintomas dele aparecem quando escritores de inteligência inegável pegam-se, para desqualificar seus antecessores mais caros, atribuindo-lhes defeitos estranhíssimos.
Seguem dois possíveis exemplos, ambos extraídos do bom livro "Saturno nos Trópicos - A melancolia européia chega ao Brasil", de Moacyr Scliar:
O segundo exemplo é ainda mais curioso:
De onde Lima Barreto, homem inteligentíssimo que era, teria tirado isso?
Seguem dois possíveis exemplos, ambos extraídos do bom livro "Saturno nos Trópicos - A melancolia européia chega ao Brasil", de Moacyr Scliar:
Machado de Assis casou com Carolina Novais, irmã de seu amigo, o poeta Faustino Xavier de Novais. Uma escolha na qual psicanalistas poderiam ver um elemento edipiano: Carolina era três anos mais velha, branca, portuguesa, culta, versada em gramática — corrigia textos do escritor. Foi um casamento sem filhos, mas, aparentemente, feliz.
O segundo exemplo é ainda mais curioso:
Lima Barreto foi comparado a Machado de Assis, o que não deixa de ser irônico: ele fazia reservas ao autor de Dom Casmurro, a quem faltaria, em sua opinião, “uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da arte”; Machado preferiria “conversa de menina prendada”.
De onde Lima Barreto, homem inteligentíssimo que era, teria tirado isso?
"Negra Sombra", cantada por Luz Casal
A grande Arte causa admiração e não raramente põe-nos numa espécie de transe, palavra que é muito bem definida no Dicionário Houaiss como sendo um "estado de abstração ou de exaltação de alguém que se sente transportado para fora de si e do mundo sensível, e em sintonia com algo transcendente."
É algo assim que sinto quando ouço "Negra Sombra", cantada por Luz Casal. Escrevo este post ao som dela, após ouvi-la continuamente por mais de uma hora.
Eis a letra, em galego, língua próxima do castelhano, e portanto do espanhol (como sabem, o castelhano tornou-se sinônimo de língua espanhola porque foi do dialeto falado no reino de Castela, que tinha ascendência política sobre todos os demais, que se originou o espanhol moderno):
Cando penso que te fuches,
negra sombra que me asombras,
ó pé dos meus cabezales
tornas facéndome mofa.
Cando maxino que es ida,
no mesmo sol te me amostras,
i eres a estrela que brila,
i eres o vento que zoa.
Si cantan, es ti que cantas,
si choran, es ti que choras,
i es o marmurio do río
i es a noite i es a aurora.
En todo estás e ti es todo,
pra min i en min mesma moras,
nin me abandonarás nunca,
sombra que sempre me asombras.
Segue uma tradução livre desse belo poema musicado pela primeira vez em 1892, tornando-se então uma das mais tradicionais músicas galegas:
Quando penso que te foste,
negra sombra que me assombra,
aos pés de minhas estruturas,
retornas debochando-me
Quando imagino que tenhas ido
Sob o mesmo sol tu me mostras
E és a estrela que brilha
E és o vento que zune
Se cantam, és tu que cantas,
Se choram, és tu que choras,
E és o murmúrio do rio
E és a noite, e és a aurora.
Em tudo estás e tu és tudo
para mim e em mim mesma moras,
nem me abandonarás nunca,
sombra que sempre me assombra.
É algo assim que sinto quando ouço "Negra Sombra", cantada por Luz Casal. Escrevo este post ao som dela, após ouvi-la continuamente por mais de uma hora.
Eis a letra, em galego, língua próxima do castelhano, e portanto do espanhol (como sabem, o castelhano tornou-se sinônimo de língua espanhola porque foi do dialeto falado no reino de Castela, que tinha ascendência política sobre todos os demais, que se originou o espanhol moderno):
Cando penso que te fuches,
negra sombra que me asombras,
ó pé dos meus cabezales
tornas facéndome mofa.
Cando maxino que es ida,
no mesmo sol te me amostras,
i eres a estrela que brila,
i eres o vento que zoa.
Si cantan, es ti que cantas,
si choran, es ti que choras,
i es o marmurio do río
i es a noite i es a aurora.
En todo estás e ti es todo,
pra min i en min mesma moras,
nin me abandonarás nunca,
sombra que sempre me asombras.
Segue uma tradução livre desse belo poema musicado pela primeira vez em 1892, tornando-se então uma das mais tradicionais músicas galegas:
Quando penso que te foste,
negra sombra que me assombra,
aos pés de minhas estruturas,
retornas debochando-me
Quando imagino que tenhas ido
Sob o mesmo sol tu me mostras
E és a estrela que brilha
E és o vento que zune
Se cantam, és tu que cantas,
Se choram, és tu que choras,
E és o murmúrio do rio
E és a noite, e és a aurora.
Em tudo estás e tu és tudo
para mim e em mim mesma moras,
nem me abandonarás nunca,
sombra que sempre me assombra.
3.12.04
Tristes Fins
O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se aplicados os princípios do ideal, as qualidades tornam-se defeitos, tanto que muitas vezes o homem íntegro consegue menos do que aquele que usa do egoísmo e da rotina vulgar.
Ernest Renan (1823-92)
(Epígrafe de "Triste Fim de Policarpo Quaresma")
Violências
Disse Graciliano Ramos que todas as relações humanas baseiam-se na violência, seja econômica, seja física, seja psicológica, sem se esquecer de que essas não são mutuamente excludentes.
5.10.04
A Luta Pelo Direito
-- Vês aquele homem velho e barbudo?
-- Onde?
-- Ali, no meio da praça.
-- Que cena esdrúxula. Quem é?
-- Há anos vem aqui. Tenta chamar a atenção de todos. Grita por justiça e gesticula de forma tresloucada.
-- Sabes o que houve com ele?
-- As pessoas dizem que ele foi passado para trás... ainda jovem.
-- Veja. Ele aproxima-se das pessoas com o dedo em riste e grita algo. Parece dizer "Justiça!". Ele tem um rosto seco, duro como o de uma estátua.
-- É alvo constante de zombarias. Já vi jogarem objetos nele. Alguns estudantes até o chutaram.
-- Se o Brasil fosse um país sério, o governo manteria manicômios em condições de curar pessoas como essas.
-- Com efeito.
-- Onde?
-- Ali, no meio da praça.
-- Que cena esdrúxula. Quem é?
-- Há anos vem aqui. Tenta chamar a atenção de todos. Grita por justiça e gesticula de forma tresloucada.
-- Sabes o que houve com ele?
-- As pessoas dizem que ele foi passado para trás... ainda jovem.
-- Veja. Ele aproxima-se das pessoas com o dedo em riste e grita algo. Parece dizer "Justiça!". Ele tem um rosto seco, duro como o de uma estátua.
-- É alvo constante de zombarias. Já vi jogarem objetos nele. Alguns estudantes até o chutaram.
-- Se o Brasil fosse um país sério, o governo manteria manicômios em condições de curar pessoas como essas.
-- Com efeito.
25.9.04
There are many ways to live, man
Only one thing a man can do.
Find something that's his.
Make an island for himself.
(Terrence Malick, in "The Thin Red Line")
Find something that's his.
Make an island for himself.
(Terrence Malick, in "The Thin Red Line")
23.9.04
30.8.04
24.8.04
Um pouco de Aristóteles
Sempre à procura, colega?
Jamais satisfeito com o que tem ou com o que é?
Como? Ainda em busca da tradução perfeita e a todas critica?
E jamais realizas porque precisa aprender algo mais ou teme a opinião alheia?
É melhor ser ato do que uma potência que se adia eternamente, colega.
Jamais satisfeito com o que tem ou com o que é?
Como? Ainda em busca da tradução perfeita e a todas critica?
E jamais realizas porque precisa aprender algo mais ou teme a opinião alheia?
É melhor ser ato do que uma potência que se adia eternamente, colega.
7.8.04
Dever do Ser
Acurar, afiar, aprimorar, apurar, burilar,
esmerar, lapidar, limar, melhorar,
aperfeiçoar, polir, relimar,
requintar, retocar, sofisticar
o poema, a prosa, o amor,
o ódio,
a amizade, a inimizade,
o eu, o meu,
(jamais o tu nem o teu)
até que
cada qual
se torne,
precisamente,
o que é.
esmerar, lapidar, limar, melhorar,
aperfeiçoar, polir, relimar,
requintar, retocar, sofisticar
o poema, a prosa, o amor,
o ódio,
a amizade, a inimizade,
o eu, o meu,
(jamais o tu nem o teu)
até que
cada qual
se torne,
precisamente,
o que é.
Prolegômenos de um Poema em que se Define de uma vez e para sempre a Literatura
A LITERATURA é
uma CIÊNCIA rigorosa
que tem como objeto de estudo
a VIDA com o intuito de
DECIFRÁ-LA,
RECRIÁ-LA,
ELEVÁ-LA
e
ENGANÁ-LA.
Põe-nos (os que ENXERGAM
na e a ESCURIDÃO) cientes
do MISTÉRIO,
entendido esse como o além
do preciso LIMITE do
INTELIGÍVEL.
Faz da vida
uma experiência
ESTÉTICA digna de
ser pensada e contemplada.
Leva-nos ALHURES e
põe-nos em contato com a
ALTERIDADE possível em nós
mesmos, alargando nosso
ESPÍRITO.
Nisso, a FICÇÃO da vida
passa com menos
(e mitigando as)
DORES na (e da)
ALMA.
uma CIÊNCIA rigorosa
que tem como objeto de estudo
a VIDA com o intuito de
DECIFRÁ-LA,
RECRIÁ-LA,
ELEVÁ-LA
e
ENGANÁ-LA.
Põe-nos (os que ENXERGAM
na e a ESCURIDÃO) cientes
do MISTÉRIO,
entendido esse como o além
do preciso LIMITE do
INTELIGÍVEL.
Faz da vida
uma experiência
ESTÉTICA digna de
ser pensada e contemplada.
Leva-nos ALHURES e
põe-nos em contato com a
ALTERIDADE possível em nós
mesmos, alargando nosso
ESPÍRITO.
Nisso, a FICÇÃO da vida
passa com menos
(e mitigando as)
DORES na (e da)
ALMA.
3.8.04
Uma cena de ciúme
A moça X aproxima-se da moça Y e diz:
-- Conheci o rapaz Z. O que me diz dele?
Segue-se um pequeno susto, um pequeno fitar de olhos e uma pequena pausa. Responde:
-- Conheço-o muito bem. É das melhores pessoas que já conheci. Espero que consiga ter dele o mesmo que já tive.
A moça X demonstra grande satisfação no rosto, e a moça Y faz questão de mudar de assunto.
-- Conheci o rapaz Z. O que me diz dele?
Segue-se um pequeno susto, um pequeno fitar de olhos e uma pequena pausa. Responde:
-- Conheço-o muito bem. É das melhores pessoas que já conheci. Espero que consiga ter dele o mesmo que já tive.
A moça X demonstra grande satisfação no rosto, e a moça Y faz questão de mudar de assunto.
31.7.04
Conselho aos Jovens, por Nelson Rodrigues
Muito já se escreveu sobre o que os velhos, que viveram ao menos quantitativamente mais, poderiam fazer para que a caminhada dos jovens seja mais fácil. Na literatura, há um texto famoso e excelente de Wilde. Aqui vai o conselho de Nelson, nas palavras de Paulo Nogueira Batista Jr.
Certa vez, Nelson Rodrigues deu uma entrevista a Otto Lara Resende na televisão. Na época, o "poder jovem" estava no auge. A certa altura, o Otto indagou: "Que conselho daria para as novas gerações?". Nelson não teve dúvidas. Encarou a câmera e disparou: "Envelheçam! Rápida e urgentemente!".
24.7.04
Dando voz às mulheres
"Gosto de cantadas baratas, tipo: "Não sabia que boneca andava"."
"Não gosto de preliminares, chego, tiro a roupa e vou direto ao ponto."
"Quando tô afim, minha tática é simples. Jogo charme e na hora H me faço de difícil, mas é só insistir que fico facinho"
"Uso calça de cintura baixa e blusas que deixam o colo à mostra só pra dar um gostinho de quero mais"
"O que rola muito são aqueles olhares gulosos acompanhados de um mal-intencionado "oi, tudo bom", isso eu ouço sempre!"
"Mulher é muito invejosa. Principalmente as menos dotadas de inteligência e beleza."
"Dizem as línguas, se boas ou más eu não sei, que as mulheres são como moedas: ou são caras ou são coroas."
"Não gosto de preliminares, chego, tiro a roupa e vou direto ao ponto."
"Quando tô afim, minha tática é simples. Jogo charme e na hora H me faço de difícil, mas é só insistir que fico facinho"
"Uso calça de cintura baixa e blusas que deixam o colo à mostra só pra dar um gostinho de quero mais"
"O que rola muito são aqueles olhares gulosos acompanhados de um mal-intencionado "oi, tudo bom", isso eu ouço sempre!"
"Mulher é muito invejosa. Principalmente as menos dotadas de inteligência e beleza."
"Dizem as línguas, se boas ou más eu não sei, que as mulheres são como moedas: ou são caras ou são coroas."
22.7.04
No meio e no fim do caminho
No começo do caminho não tinha uma Esfinge
não tinha uma Esfinge no começo do caminho
tinha uma Esfinge
no meio do caminho tinha uma Esfinge.
Nunca me deveria esquecer desse acontecimento
na vida de minha alma tão conturbada.
Nunca me deveria esquecer que no começo do caminho
não tinha uma Esfinge
tinha uma Esfinge no meio do caminho
no fim do caminho é uma Esfinge.
não tinha uma Esfinge no começo do caminho
tinha uma Esfinge
no meio do caminho tinha uma Esfinge.
Nunca me deveria esquecer desse acontecimento
na vida de minha alma tão conturbada.
Nunca me deveria esquecer que no começo do caminho
não tinha uma Esfinge
tinha uma Esfinge no meio do caminho
no fim do caminho é uma Esfinge.
16.7.04
10 coisas a fazer antes de dar a alma ao Criador, por Alcir Pécora
"Já que se trata de uma imaginação mórbida, cujo limite é extremo, apenas gostaria de fazer coisas bem difíceis ou altamente improváveis. Por exemplo:
1. Mudar-me para um lugar habitado por gente capaz de autogoverno.
2. Ignorar que governantes ignorantes usam a palavra "acadêmico" para produzir ofensa, querendo desqualificar alguém como inútil ou incapacitado para a ação.
3. Encontrar intelectuais não obnóxios, isto é, que se recusam a pertencer ao corpo místico do reino ou a prestar servidão voluntária a aparelhos partidários.
4. Torcer para que se esgote o estoque de malandragens com a dialética, as quais pretendem justificar a ausência de ética do governo, encobrir a corrupção do governante ou descobrir algum charme na miséria dos governados.
5. Dormir em paz no túmulo do samba, do axé, do pagode, do forró, do Carnaval, da cerveja, da macumba e do churrascão.
Como crítico literário, gostaria de assistir a alguns milagres no campo da minha profissão:
6. Não topar com Caetano Veloso ou Chico Buarque em nenhuma antologia da poesia ou da prosa brasileira.
7. Não achar a palavra "jovem" ou a palavra "geração" em nenhuma antologia ou artigo de literatura contemporânea.
8. Lecionar num departamento que não subordine o estudo da literatura à idéia de nação ou nacionalidade.
9. Ler um suplemento cultural que não tome história, filosofia ou sociologia como melhor ciência ou ficção do que a literatura.
10. Escrever crítica de obra sem ser acusado de inimigo do autor, de inimigo dos amigos do autor, de inimigo da instituição do autor ou, enfim, de inimigo tanto de tudo quanto de todos."
Alcir Pécora é professor de literatura na Universidade Estadual de Campinas.
1. Mudar-me para um lugar habitado por gente capaz de autogoverno.
2. Ignorar que governantes ignorantes usam a palavra "acadêmico" para produzir ofensa, querendo desqualificar alguém como inútil ou incapacitado para a ação.
3. Encontrar intelectuais não obnóxios, isto é, que se recusam a pertencer ao corpo místico do reino ou a prestar servidão voluntária a aparelhos partidários.
4. Torcer para que se esgote o estoque de malandragens com a dialética, as quais pretendem justificar a ausência de ética do governo, encobrir a corrupção do governante ou descobrir algum charme na miséria dos governados.
5. Dormir em paz no túmulo do samba, do axé, do pagode, do forró, do Carnaval, da cerveja, da macumba e do churrascão.
Como crítico literário, gostaria de assistir a alguns milagres no campo da minha profissão:
6. Não topar com Caetano Veloso ou Chico Buarque em nenhuma antologia da poesia ou da prosa brasileira.
7. Não achar a palavra "jovem" ou a palavra "geração" em nenhuma antologia ou artigo de literatura contemporânea.
8. Lecionar num departamento que não subordine o estudo da literatura à idéia de nação ou nacionalidade.
9. Ler um suplemento cultural que não tome história, filosofia ou sociologia como melhor ciência ou ficção do que a literatura.
10. Escrever crítica de obra sem ser acusado de inimigo do autor, de inimigo dos amigos do autor, de inimigo da instituição do autor ou, enfim, de inimigo tanto de tudo quanto de todos."
Alcir Pécora é professor de literatura na Universidade Estadual de Campinas.
Sinonímia Mórbida
"abotoar, acabar, apagar, apitar, bafuntar, campar-se, defuntar, desaparecer, descansar, desencarnar, desviver, embarcar, empacotar, esperecer, espichar, esticar, estuporar-se, expirar, falecer, faltar, fenecer, finar-se, ir-se, passar, perecer, pifar, sucumbir; e, entre outros, os tópicos: abotoar o paletó, adormecer no Senhor, assentar o cabelo, bater a alcatra na terra ingrata, bater a bota, bater a caçoleta, bater a canastra, bater a pacuera, bater as botas, bater com a cola na cerca, bater o pacau, bater o prego, bater o trinta-e-um, botar o bloco na rua, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar à casca, dar à espinha, dar a louca, dar a ossada, dar com o rabo na cerca, dar o couro às varas, dar o último alento, dar o último suspiro, descer à cova, descer à terra, descer ao túmulo, desinfetar o beco, desocupar o beco, dizer adeus ao mundo, embarcar deste mundo para um melhor, entregar a alma (ao Criador ou a Deus ou ao Diabo), entregar a rapadura, espichar a canela, esticar a canela, esticar o cambito, esticar o pernil, ir(-se) desta para a melhor, ir para a cidade dos pés juntos, ir para a Cacuia (ou Cucuia), ir para bom lugar, ir para o Acre, ir para o andar de cima, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, largar a casca, passar desta para melhor (vida), pitar macaia, quebrar a tira, render a alma ao Criador, render o espírito, vestir o paletó de madeira, vestir o pijama de madeira, virar presunto." (Dicionário Houaiss)
13.7.04
Olavo de Carvalho
De tudo que eu já li em colunas jornalísticas da autoria de Olavo de Carvalho, este é o único tema que merece atenção: a paralaxe conceitual, o desacordo entre o que uma teoria diz e a situação concreta do autor da teoria.
Junto duas colunas numa só. Espero que tenha ficado inteligível.
"Quando um preso político alega que vive sob uma ditadura, sua situação confirma o que ele diz. Mas, quando o sr. István Mészáros declara que o capitalismo é totalitário porque obriga todo o mundo a produzir ou morrer, sua condição de acadêmico dispensado da produção para entregar-se a tarefas intelectuais é um flagrante desmentido da afirmativa.
(...)
Chamo isso de paralaxe conceitual: o deslocamento entre o eixo visual do indivíduo real e o da perspectiva que enquanto criador de teorias ele projeta naquilo que escreve. Uma teoria assim concebida é puramente ficcional, no sentido estrito do termo. (...) Teorias como essa só podem ser contempladas como obras de arte (...). Inúteis como descrições da realidade, transportam-nos a um universo inventado que tem força persuasiva às vezes superior à de uma descrição da realidade.
(...)
Ao longo das minhas aulas, tenho demonstrado, mediante a aplicação meticulosa do critério de auto-referência existencial, a estrutura nitidamente ficcional das filosofias de Maquiavel, Descartes, Locke, Hobbes, Hume, Kant, Hegel, e Marx, bem como das teorias neopragmatistas, relativistas e desconstrucionistas.
(...)
Nicolau Maquiavel, por exemplo, cria uma fórmula de governo sem notar que, se aplicada, ela teria como primeira conseqüência previsível o assassinato de Nicolau Maquiavel como colaborador principal do “Príncipe” e, portanto, segundo ele mesmo, virtual suspeito número um de traição. Descartes diz que vai narrar um experimento psicológico real no instante mesmo em que coloca como sujeito desse experimento um “eu” abstrato, isolado das condições de tempo e espaço que lhe dariam alguma consistência narrativa. Meu livrinho está cheio desses homens de duas cabeças, mas nenhum deles se compara ao sr. Dawkins.
(...)
É o seguinte. Em favor da sua tese da inexistência de causas finais na origem dos seres vivos, ele argumenta que unidades de informação randomicamente combinadas podem gerar seqüências significativas (mais ou menos como os átomos de Epicuro, movendo-se a esmo no espaço, formavam uma vaca por pura sorte). Para demonstrar essa possibilidade, ele concebeu um experimento informático que não sei se é tocante na sua candura ou revoltante na dose de candura que espera do público. Ele toma uma frase do Hamlet, “ Methinks it is like a weasel ” (“Acho que é como uma doninha”), e, num programa de computador criado para esse fim, vai produzindo milhares de combinações de letras até que, de repente, aparece de novo na tela: “ Methinks it is like a weasel. ” Nesse instante o sr. Dawkins exclama algo como: “A-ha! Quod erat demonstrandum! ” e se curva com exemplar modéstia ante os aplausos da platéia.
Werner Gitt observou que (...) as letras e espaços da frase não são unidades de informação anárquicas. São, precisamente, os sinais necessários para escrever “Methinks it is like a weasel” — seqüência que não se formou por si mesma mas foi escolhida pelo sr. Dawkins. A informação, portanto, não foi “gerada” pelas transformações, mas colocada lá antecipadamente para gerá-las. Em segundo lugar, noto eu que as letras na combinação não significam nada “em si mesmas”, mas só dentro do sistema, previamente dado, da língua inglesa — uma chave que também não foi gerada pelas transformações e sim admitida previamente como código da sua interpretação."
Junto duas colunas numa só. Espero que tenha ficado inteligível.
"Quando um preso político alega que vive sob uma ditadura, sua situação confirma o que ele diz. Mas, quando o sr. István Mészáros declara que o capitalismo é totalitário porque obriga todo o mundo a produzir ou morrer, sua condição de acadêmico dispensado da produção para entregar-se a tarefas intelectuais é um flagrante desmentido da afirmativa.
(...)
Chamo isso de paralaxe conceitual: o deslocamento entre o eixo visual do indivíduo real e o da perspectiva que enquanto criador de teorias ele projeta naquilo que escreve. Uma teoria assim concebida é puramente ficcional, no sentido estrito do termo. (...) Teorias como essa só podem ser contempladas como obras de arte (...). Inúteis como descrições da realidade, transportam-nos a um universo inventado que tem força persuasiva às vezes superior à de uma descrição da realidade.
(...)
Ao longo das minhas aulas, tenho demonstrado, mediante a aplicação meticulosa do critério de auto-referência existencial, a estrutura nitidamente ficcional das filosofias de Maquiavel, Descartes, Locke, Hobbes, Hume, Kant, Hegel, e Marx, bem como das teorias neopragmatistas, relativistas e desconstrucionistas.
(...)
Nicolau Maquiavel, por exemplo, cria uma fórmula de governo sem notar que, se aplicada, ela teria como primeira conseqüência previsível o assassinato de Nicolau Maquiavel como colaborador principal do “Príncipe” e, portanto, segundo ele mesmo, virtual suspeito número um de traição. Descartes diz que vai narrar um experimento psicológico real no instante mesmo em que coloca como sujeito desse experimento um “eu” abstrato, isolado das condições de tempo e espaço que lhe dariam alguma consistência narrativa. Meu livrinho está cheio desses homens de duas cabeças, mas nenhum deles se compara ao sr. Dawkins.
(...)
É o seguinte. Em favor da sua tese da inexistência de causas finais na origem dos seres vivos, ele argumenta que unidades de informação randomicamente combinadas podem gerar seqüências significativas (mais ou menos como os átomos de Epicuro, movendo-se a esmo no espaço, formavam uma vaca por pura sorte). Para demonstrar essa possibilidade, ele concebeu um experimento informático que não sei se é tocante na sua candura ou revoltante na dose de candura que espera do público. Ele toma uma frase do Hamlet, “ Methinks it is like a weasel ” (“Acho que é como uma doninha”), e, num programa de computador criado para esse fim, vai produzindo milhares de combinações de letras até que, de repente, aparece de novo na tela: “ Methinks it is like a weasel. ” Nesse instante o sr. Dawkins exclama algo como: “A-ha! Quod erat demonstrandum! ” e se curva com exemplar modéstia ante os aplausos da platéia.
Werner Gitt observou que (...) as letras e espaços da frase não são unidades de informação anárquicas. São, precisamente, os sinais necessários para escrever “Methinks it is like a weasel” — seqüência que não se formou por si mesma mas foi escolhida pelo sr. Dawkins. A informação, portanto, não foi “gerada” pelas transformações, mas colocada lá antecipadamente para gerá-las. Em segundo lugar, noto eu que as letras na combinação não significam nada “em si mesmas”, mas só dentro do sistema, previamente dado, da língua inglesa — uma chave que também não foi gerada pelas transformações e sim admitida previamente como código da sua interpretação."
2.7.04
Sócrates, o justo
"Sócrates, o justo, foi morto e, ao contrário, o injusto parece triunfar; o virtuoso e justo está à mercê do injusto e sofre todas as suas agressões; o vicioso e o injusto parecem, ao contrário, felizes e satisfeitos com as suas prepotências; o político justo sucumbe, o político sem escrúpulos se impõe; o bem é que deveria triunfar e, ao contrário, é o mal que parece prevalecer. De que lado está a verdade? (...) [Para Cálicles] a verdade está do lado do mais forte, isto é, daquele que sabe zombar de tudo e de todos, gozar de todos os prazeres, satisfazer a todas as paixões, saciar todo desejo, buscar todos os meios que servem a seus fins; a justiça é uma invenção dos fracos, a virtude uma estultície, a temperança um absurdo; quem se abstém dos prazeres, é moderado e governa suas paixões é um estulto, porque a vida que ele vive é, em realidade, igual a uma morte." (Reale, sobre o Górgias de Platão.)
1.7.04
Sobre a maturidade
Sinto-me maduro para dizer qualquer coisa. Temo, porém, estar maduro para não ter mais o que dizer. Diz-se algo que já estaria morto no coração?
Sinto-me forte para enfrentar qualquer coisa. Temo porém nunca ter desejado enfrentá-las. Na verdade -- lamento com lucidez -- nada havia a ser enfrentado. Enfrenta-se algo que já estaria morto no coração?
Com fantasmas lutamos, ao agir e ao falar, tal qual Enéias no inferno: fantasmas que não se deixam atingir. Mas se não se deixam, por que morrem?
Sinto-me forte para enfrentar qualquer coisa. Temo porém nunca ter desejado enfrentá-las. Na verdade -- lamento com lucidez -- nada havia a ser enfrentado. Enfrenta-se algo que já estaria morto no coração?
Com fantasmas lutamos, ao agir e ao falar, tal qual Enéias no inferno: fantasmas que não se deixam atingir. Mas se não se deixam, por que morrem?
29.6.04
Não existe crime perfeito, o criminoso não assim permite
Aquele havia sido o local de tantos e tantos atos ignominiosos, porém todos, cada um deles, sem nenhuma exceção, necessários.
Era chegada a hora de partir e começar uma nova vida. Já não havia mais crimes a cometer. Ao menos não naquela intensidade.
Ele poderia, e até deveria, não deixar rastro algum.
No entanto, a prudência deu lugar à soberba e não quis apagar o passado de belos crimes: desenrolou um fio de Ariadne.
Era chegada a hora de partir e começar uma nova vida. Já não havia mais crimes a cometer. Ao menos não naquela intensidade.
Ele poderia, e até deveria, não deixar rastro algum.
No entanto, a prudência deu lugar à soberba e não quis apagar o passado de belos crimes: desenrolou um fio de Ariadne.
27.6.04
Pinturas: Edward Hopper (1882-1967)
Os personagens dos quadros de Hopper aparecem sempre apáticos, alheios a situação em que vivem. Nunca estão onde estão. Sempre se querem alhures, em outra situação. Ou já não se querem nenhures, nem em qualquer situação?
Summer Evening, 1947
Summer Evening, 1947
Bill Clinton's book
In his admirably brief prologue, Bill Clinton confesses that when he was a young man just out of law school he bought a book called “How to Get Control of Your Time and Your Life”. It recommended that readers make a list of their goals and then categorise them in order of importance. On his list young Bill included: be a good man, have a good marriage and children, have good friends, make a successful political life, and write a great book. (The Economist)
24.6.04
Hans Ulrich Gumbrecht sobre a Crítica Literária
1. Não acredite em nenhum "método" ou (pior) "metodologia" - não porque os métodos ou as metodologias sejam intrinsecamente maus, mas simplesmente porque eles o impedem de pensar de modo independente e de desfrutar sua liberdade intelectual em uma dimensão de pensamento que não admita regularidades rígidas.
2. Não vá além da dimensão dos textos como seus objetos de referência sem pensar duas vezes, não porque outros objetos de referência além dos textos sejam intrinsecamente maus, mas simplesmente porque seus alunos e leitores têm o direito de supor que você é um especialista diplomado em alguma coisa - e porque essa coisa devem ser os textos literários -, mas também porque as analogias entre textos e outras mídias são em geral mais complexas do que tendemos a aceitar.
3. Não menospreze a qualidade material dos significantes - não porque o significado (que está "sob" os significantes) não deva ter importância, mas simplesmente porque a capacidade de levar em conta as superfícies é o que faz a diferença que produz a experiência estética.
4. Não se concentre basicamente no que parece familiar no conteúdo de um texto - não porque deva haver necessariamente alguma coisa errada em algo que você ache familiar, mas apenas porque a capacidade de levar em conta a alteridade é o que faz a diferença que produz a experiência histórica.
5. Não tente ser político - não porque exista algo (terrivelmente) errado em ser político, mas apenas porque, tendo escolhido a crítica literária como profissão, provavelmente você não será bom em política (lembre-se: Adolf Hitler foi um candidato frustrado à Academia de Artes de Viena que se transformou em político amador).
6. Não procure muito por construções de identidade social (ou outras) nos textos que você estiver analisando - não porque seja ruim ter uma ou outra identidade, mas simplesmente porque nós, intelectuais, tendemos a ter demasiadas.
7. Tente não ler traduções dos textos que você estiver analisando - não porque haja alguma coisa errada com as traduções, mas simplesmente porque, de outro modo, talvez você não possa reivindicar que é um especialista que merece ser pago como especialista.
8. Não diga a seus alunos como devem entender corretamente os textos que você está lendo para eles - não porque haja alguma coisa errada em compreendê-los corretamente, mas apenas porque é mais valioso tentar compreender por conta própria do que compreender corretamente.
Hans Ulrich Gumbrecht é teórico da literatura e professor no departamento de literatura comparada da Universidade Stanford (EUA).
30.5.04
Uma história que, de tão banal, não merecia nenhum post
Com a voz baixa, quase sussurando, disse:
-- Chupa, vai. Chupa meu cacete, vai.
Ela reclamou da falta de espaço:
-- Aqui é muito apertado! Vamos para outro lugar. Tá muito quente! No meio da rua é perigoso.
-- Estou sem dinheiro para o motel, disse ele. Vou deixar você em casa. É melhor.
Deu-se por vencida:
-- Então fecha os vidros.
E continuou:
-- Põe pra fora.
-- Põe você. E abre sua calça pra eu ficar pegando, disse ele, sempre com a voz entre sussurando e sôfrega.
Parando para respirar, ela disse:
-- Ai, que calor! Tem certeza de que os vidros são escuros? Nós estamos no meio da rua!
-- A esta hora todos estão dormindo. E eu gosto é do perigo.
Uma pausa. E ele continua:
-- Tira logo a tua calça toda, vai. Quero pegar na tua bucetinha.
-- Vai dar o maior trabalho para vestir!, ela advertiu, com a calça já abaixada até o joelho.
Quando ele começou a tocá-la, ela fechou os olhos de prazer, abriu mais as pernas e começou a movimentar lentamente, para frente e para trás, a pélvis.
Ele disse então:
-- Segura meu cacete, vai. Gosta no cuzinho?
Ela começou a masturbá-lo com força, até que parou, levantou a blusa, abaixou o sutiã e debruçou-se mais uma vez sobre o pênis do rapaz. Engoliu-o o quanto pôde, com uma das mãos masturbando-o e massageando-lhe o saco. Depois, com zelo, segurando firme, passou o membro do rapaz por todo o ventre e seios.
Ele sentia algum prazer, enquanto olhava para a rua escura, pensando a que horas iria chegar em casa. Olhou para ela: estava com os olhos fechados, no rosto enorme felicidade, felicidade de quem sente enorme prazer. O prazer de vê-la rendida ao membro dele era maior, muito maior, do que o prazer físico.
Disse então para ela:
-- Gosta do meu cacete, gosta?
-- Adoro. Queria ele em outro lugar, ela respondeu, com a voz baixa.
-- Quer ser minha puta? só minha?
Ela parou, sentou-se e ficou calada:
-- Putz, o que foi? Falei "puta" de maneira carinhosa. Ser puta de apenas um homem não é ruim. Homem gosta é de puta, mas de uma puta que seja só dele.
Puxou-a com força para si, indo com a mão diretamente aos seios dela.
-- Ah, me beija, vai. Deixe de coisa.
Aos poucos ela cedeu.
-- Vamos para o banco de trás. Quero comer você agora.
Com os vidros completamente embaçados, ele estocava-lhe o pênis com tanta força que ela mal conseguia segurar os gemidos. Suada deveras, com o rosto contra o vidro lateral do banco traseiro, ela mais uma vez parou, sentou-se e ficou calada quando ele disse:
-- Tá gostando de meu cacete dentro de ti? tá gostando, tá? rebola a bucetinha, vai. quer ser minha puta? só minha? quer?
Passou um bom tempo calada.
-- Chupa, vai. Chupa meu cacete, vai.
Ela reclamou da falta de espaço:
-- Aqui é muito apertado! Vamos para outro lugar. Tá muito quente! No meio da rua é perigoso.
-- Estou sem dinheiro para o motel, disse ele. Vou deixar você em casa. É melhor.
Deu-se por vencida:
-- Então fecha os vidros.
E continuou:
-- Põe pra fora.
-- Põe você. E abre sua calça pra eu ficar pegando, disse ele, sempre com a voz entre sussurando e sôfrega.
Parando para respirar, ela disse:
-- Ai, que calor! Tem certeza de que os vidros são escuros? Nós estamos no meio da rua!
-- A esta hora todos estão dormindo. E eu gosto é do perigo.
Uma pausa. E ele continua:
-- Tira logo a tua calça toda, vai. Quero pegar na tua bucetinha.
-- Vai dar o maior trabalho para vestir!, ela advertiu, com a calça já abaixada até o joelho.
Quando ele começou a tocá-la, ela fechou os olhos de prazer, abriu mais as pernas e começou a movimentar lentamente, para frente e para trás, a pélvis.
Ele disse então:
-- Segura meu cacete, vai. Gosta no cuzinho?
Ela começou a masturbá-lo com força, até que parou, levantou a blusa, abaixou o sutiã e debruçou-se mais uma vez sobre o pênis do rapaz. Engoliu-o o quanto pôde, com uma das mãos masturbando-o e massageando-lhe o saco. Depois, com zelo, segurando firme, passou o membro do rapaz por todo o ventre e seios.
Ele sentia algum prazer, enquanto olhava para a rua escura, pensando a que horas iria chegar em casa. Olhou para ela: estava com os olhos fechados, no rosto enorme felicidade, felicidade de quem sente enorme prazer. O prazer de vê-la rendida ao membro dele era maior, muito maior, do que o prazer físico.
Disse então para ela:
-- Gosta do meu cacete, gosta?
-- Adoro. Queria ele em outro lugar, ela respondeu, com a voz baixa.
-- Quer ser minha puta? só minha?
Ela parou, sentou-se e ficou calada:
-- Putz, o que foi? Falei "puta" de maneira carinhosa. Ser puta de apenas um homem não é ruim. Homem gosta é de puta, mas de uma puta que seja só dele.
Puxou-a com força para si, indo com a mão diretamente aos seios dela.
-- Ah, me beija, vai. Deixe de coisa.
Aos poucos ela cedeu.
-- Vamos para o banco de trás. Quero comer você agora.
Com os vidros completamente embaçados, ele estocava-lhe o pênis com tanta força que ela mal conseguia segurar os gemidos. Suada deveras, com o rosto contra o vidro lateral do banco traseiro, ela mais uma vez parou, sentou-se e ficou calada quando ele disse:
-- Tá gostando de meu cacete dentro de ti? tá gostando, tá? rebola a bucetinha, vai. quer ser minha puta? só minha? quer?
Passou um bom tempo calada.
27.5.04
Mário Quintana
Fiz uma seleção de alguns dos que me parecem os mais significativos aforismos escritos pelo grande poeta gaúcho Mario Quintana.
A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."
Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.
Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.
Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.
Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.
Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
O Poema
O poema, essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.
A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."
Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.
Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.
Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.
Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.
Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
O Poema
O poema, essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.
26.1.04
A pior raça
Um símbolo sexual da filosofia e literatura francesas disse que "o problema são os outros". Porém, quando posta nessas bases, a afirmação torna-se simplória, uma vez que "os outros" não são um todo homogêneo, e há aqueles que nem sempre são "um problema", muito menos "o problema". É necessário distinguir pois. Falarei aqui daquele que me parece ser um tipo tão execrável quanto comum.
Não sei se vocês concordam, mas o pior tipo de gente é aquele vive a atacar via pequenas irônias, via sorrisinhos sarcásticos. Essas pessoas ou fabricam uma situação para agir desse modo ou aproveitam-se de algo que na cabecinha delas atingiria o sujeito-alvo. E o sujeito-alvo pode desestabilizar-se, pode sentir-se inferiorizado... E aí elas conseguiram o intento: por-se acima, pisando.
Essas pessoas também costumam propagandear feitos, sejam eles reais ou imaginários. Viagens, festas, dinheiro, trabalhos, feitos, feitos, feitos. Elas não param nunca. Qualquer assunto, qualquer tema é oportunidade para inserir alguma informação que vise à autopromoção. "Vou para NY ou Paris."; "Trabalhei com o Dr. Silva, grande advogado."; "Sou muito amigo do grande Sr. Pinto, e ele me tem em grande conta."; "Namoro Érica, a gostosa."
Querem sempre mostrar-se felizes, valorosos, exitosos, e não perdem uma oportunidade para demonstrar superioridade, poder. É tudo em regra muito velado. São raposas.
Se eu pudesse extirpar essa raça de gente de minha vida, seria uma glória. Mas elas estão em todos os lugares, e nem sempre é fácil mandá-las tomar no cu, fazê-las perceber que não me enganam ou intimidam, apenas me irritam, e esclarecê-las que ao agirem assim mais passam insegurança e medo da inferioridade do que o oposto. É desgastante lutar contra raposas, eu sempre preferi a luta aberta com os leões: exige mais e é mais honesta.
Se um desses estiver lendo-me, eu digo-lhe: "você não me engana, seu filho da puta. já saquei qual é a sua. eu não acredito em você. eu não tenho respeito por você. nenhum respeito."
É hora de fundar o movimento: "Você não me engana, raposinha filha da puta." Só na porrada essa raça some.
Não sei se vocês concordam, mas o pior tipo de gente é aquele vive a atacar via pequenas irônias, via sorrisinhos sarcásticos. Essas pessoas ou fabricam uma situação para agir desse modo ou aproveitam-se de algo que na cabecinha delas atingiria o sujeito-alvo. E o sujeito-alvo pode desestabilizar-se, pode sentir-se inferiorizado... E aí elas conseguiram o intento: por-se acima, pisando.
Essas pessoas também costumam propagandear feitos, sejam eles reais ou imaginários. Viagens, festas, dinheiro, trabalhos, feitos, feitos, feitos. Elas não param nunca. Qualquer assunto, qualquer tema é oportunidade para inserir alguma informação que vise à autopromoção. "Vou para NY ou Paris."; "Trabalhei com o Dr. Silva, grande advogado."; "Sou muito amigo do grande Sr. Pinto, e ele me tem em grande conta."; "Namoro Érica, a gostosa."
Querem sempre mostrar-se felizes, valorosos, exitosos, e não perdem uma oportunidade para demonstrar superioridade, poder. É tudo em regra muito velado. São raposas.
Se eu pudesse extirpar essa raça de gente de minha vida, seria uma glória. Mas elas estão em todos os lugares, e nem sempre é fácil mandá-las tomar no cu, fazê-las perceber que não me enganam ou intimidam, apenas me irritam, e esclarecê-las que ao agirem assim mais passam insegurança e medo da inferioridade do que o oposto. É desgastante lutar contra raposas, eu sempre preferi a luta aberta com os leões: exige mais e é mais honesta.
Se um desses estiver lendo-me, eu digo-lhe: "você não me engana, seu filho da puta. já saquei qual é a sua. eu não acredito em você. eu não tenho respeito por você. nenhum respeito."
É hora de fundar o movimento: "Você não me engana, raposinha filha da puta." Só na porrada essa raça some.
22.1.04
Elogios
Com não rara freqüência eu recebo elogios por este blog. Claro que há satisfação nisso (e não se trata exatamente de sentir meu ego massageado). Mas há junto com a satisfação um outro sentimento. Explico-me: "não esperamos por elogios", disse Nietzsche, "e sim por ecos". Ou seja, esperamos que uma alma fale a nossa alma como se a nossa própria alma falasse a ela mesma. Provavelmente assim nos sintamos menos sozinhos, e menos incompreendidos. Devo revelar que é bem desagradável saber-se elogiado pelo que sei não ser, e pelo que não intentei expressar. Resta-me nesse caso apenas agradecer, simulando estar contente, mas na verdade decepcionado, e sentindo-me ainda mais isolado.
Escrevemos para nós mesmos. Caso eu mesmo um dia leia-me, adoraria ouvir meu eco. Nunca o ouvi. Até hoje eu falei muito, às vezes alto, às vezes baixo, às vezes com algum desespero, à beira da loucura. Mas meu eco mesmo eu nunca ouvi. Apenas o silêncio e alguns fantasmas recorrentes, que teimam em assombrar-me não apenas à noite, mas durante o tempo todo.
Escrevemos para nós mesmos. Caso eu mesmo um dia leia-me, adoraria ouvir meu eco. Nunca o ouvi. Até hoje eu falei muito, às vezes alto, às vezes baixo, às vezes com algum desespero, à beira da loucura. Mas meu eco mesmo eu nunca ouvi. Apenas o silêncio e alguns fantasmas recorrentes, que teimam em assombrar-me não apenas à noite, mas durante o tempo todo.
Escrever
"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida."
Acho que quem disse isso foi Fernando Pessoa. Tenho preguiça agora de verificar. De qualquer forma, seja lá quem o disse, acertou. Mas acertou apenas em parte. A literatura é uma maneira de ignorar a vida num sentido muito especial: entrando nela o quanto possivel, e depois emergindo, talvez com glória, talvez sôfrego, mas sempre mantendo-se acima, avante, ao belo.
Acho que quem disse isso foi Fernando Pessoa. Tenho preguiça agora de verificar. De qualquer forma, seja lá quem o disse, acertou. Mas acertou apenas em parte. A literatura é uma maneira de ignorar a vida num sentido muito especial: entrando nela o quanto possivel, e depois emergindo, talvez com glória, talvez sôfrego, mas sempre mantendo-se acima, avante, ao belo.
16.1.04
João amava Maria...
Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág. 59. A epígrafe do texto é o poema QUADRILHA, de Drummond. Há outros personagens no texto original, igualmente mal-amados...
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
João Cabral de Melo Neto
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág. 59. A epígrafe do texto é o poema QUADRILHA, de Drummond. Há outros personagens no texto original, igualmente mal-amados...
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
11.1.04
31.12.03
Um recomeço
A vida não vinha sendo nada agradável para ela.
Muito abatida, entrou no ônibus. Era o penúltimo dia do ano, à tarde, e havia na cidade um clima de pressa, de pressa para o feriado chegar, de pressa para o ano acabar, de pressa para se livrar do passado e do presente (a idéia de que com o ano novo algo será novo predomina no imaginário do homem comum; daí a necessidade de criar símbolos e ritos que remetam a um recomeçar, a um renascer, a um reavaliar; posto de outra forma: trata-se da necessidade de manter a esperança, de dar ainda mais uma chance para si, para os outros e para a vida.)
O ônibus estava quase vazio. Cabisbaixa, sentou-se na primeira cadeira em frente à porta de entrada. Entre ela e o trocador, um vidro. Reparou seu rosto nele refletido com boa clareza. Usando-o como um espelho, começou a olhar-se profundamente.
Surpreendeu-se com o aspecto triste de sua face. Lamentou não ter mais a aparência de menina. Era bela, tinha um belo corpo, mas já não tinha o viço de antanho. O olhar triste, pensava ela, causava certa repulsa, talvez porque esse olhar cobrasse algo muito caro, e ninguém parecia estar disposto a bancar a dívida. Reparou que as maçãs do rosto estavam abatidas. Reparou também que sorria cada vez menos. Tentou então sorrir, mas o sorriso era forçado e triste. Os músculos da face pareciam se negar. Mesmo com o sol sobre si, não quis mudar de lugar. Ficou ali, parada como uma pedra, as mãos cruzadas por sobre a bolsa, olhando-se fixamente.
Uma série de pensamentos começaram então a vir-lhe à mente. Lembrou-se primeiramente dos amores. Amara de verdade até então apenas dois homens, mas as relações acabaram tragicamente, sempre para ela. Como havia sofrido! Como se sentia injustiçada e humilhada! Quanto de seu melhor foi dado em vão!
Lembrou-se da família. Vinha de uma família omissa, desestrurada e muito incompreensiva. Todos pareciam ignorá-la como indivíduo com características próprias. Todos a rotulavam disso ou daquilo, e sempre exigiam coisas impossíveis a ela, à personalidade dela. Jamais a ouviam, e portanto não a compreendiam. Quanta mágoa ela sentia! Quanta frustação já não lhe deram aqueles de quem tanto esperava!
Nesses pensamentos ia quando notou aproximar-se do local de descer. Sem se lavantar, deu o dinheiro para o cobrador. Sentiu uma repulsa dolorida quando esse, ao dar o troco, olhou com desejo para o seu decote. Precisou de um esforço físico grande para atravessar a roleta. Fez-se noite em seu espírito. Quando desceu do ônibus, atravessou a rua sem olhar para os lados. Jogada no asfalto, antes de morrer ainda lembrou da mãe e de tudo que poderia ter sido, e que não foi.
Muito abatida, entrou no ônibus. Era o penúltimo dia do ano, à tarde, e havia na cidade um clima de pressa, de pressa para o feriado chegar, de pressa para o ano acabar, de pressa para se livrar do passado e do presente (a idéia de que com o ano novo algo será novo predomina no imaginário do homem comum; daí a necessidade de criar símbolos e ritos que remetam a um recomeçar, a um renascer, a um reavaliar; posto de outra forma: trata-se da necessidade de manter a esperança, de dar ainda mais uma chance para si, para os outros e para a vida.)
O ônibus estava quase vazio. Cabisbaixa, sentou-se na primeira cadeira em frente à porta de entrada. Entre ela e o trocador, um vidro. Reparou seu rosto nele refletido com boa clareza. Usando-o como um espelho, começou a olhar-se profundamente.
Surpreendeu-se com o aspecto triste de sua face. Lamentou não ter mais a aparência de menina. Era bela, tinha um belo corpo, mas já não tinha o viço de antanho. O olhar triste, pensava ela, causava certa repulsa, talvez porque esse olhar cobrasse algo muito caro, e ninguém parecia estar disposto a bancar a dívida. Reparou que as maçãs do rosto estavam abatidas. Reparou também que sorria cada vez menos. Tentou então sorrir, mas o sorriso era forçado e triste. Os músculos da face pareciam se negar. Mesmo com o sol sobre si, não quis mudar de lugar. Ficou ali, parada como uma pedra, as mãos cruzadas por sobre a bolsa, olhando-se fixamente.
Uma série de pensamentos começaram então a vir-lhe à mente. Lembrou-se primeiramente dos amores. Amara de verdade até então apenas dois homens, mas as relações acabaram tragicamente, sempre para ela. Como havia sofrido! Como se sentia injustiçada e humilhada! Quanto de seu melhor foi dado em vão!
Lembrou-se da família. Vinha de uma família omissa, desestrurada e muito incompreensiva. Todos pareciam ignorá-la como indivíduo com características próprias. Todos a rotulavam disso ou daquilo, e sempre exigiam coisas impossíveis a ela, à personalidade dela. Jamais a ouviam, e portanto não a compreendiam. Quanta mágoa ela sentia! Quanta frustação já não lhe deram aqueles de quem tanto esperava!
Nesses pensamentos ia quando notou aproximar-se do local de descer. Sem se lavantar, deu o dinheiro para o cobrador. Sentiu uma repulsa dolorida quando esse, ao dar o troco, olhou com desejo para o seu decote. Precisou de um esforço físico grande para atravessar a roleta. Fez-se noite em seu espírito. Quando desceu do ônibus, atravessou a rua sem olhar para os lados. Jogada no asfalto, antes de morrer ainda lembrou da mãe e de tudo que poderia ter sido, e que não foi.
29.12.03
Les sages
Abaixo, uma conclusão irretorquível. Quem é capaz de reproduzir as notas emitidas pelos sábios de todos os tempos?
D'une manière générale, il est vrai que les sages de tous les temps ont toujours dit la même chose, et les sots, c'est-à-dire l'immense majorité de tous les temps, ont toujours fait la même chose, savoir le contraire, et il en sera toujours ainsi.
(Arthur Schopenhauer)
D'une manière générale, il est vrai que les sages de tous les temps ont toujours dit la même chose, et les sots, c'est-à-dire l'immense majorité de tous les temps, ont toujours fait la même chose, savoir le contraire, et il en sera toujours ainsi.
(Arthur Schopenhauer)
Saia Justa
Em que decadência pego-me, não, homens do conhecimento? Falando de programa de TV... e ainda pior: de um programa de mulherzinha... Mas como pra tudo há uma desculpa, lanço mão de Montaigne, que disse que "tudo cabe a um filósofo".
A tal de Marisa Orth é muito burrinha. Irrita-me deveras. Aquela falta do que dizer preenchida a pancadas com informações confusas e mal digeridas vindas de fontes do naipe de Superinteressante, Discovery Channel and so forth é de lascar. Que mulher burra, meu Deus!
A Fernanda Young tem uma personalidade interessante. Gosto dela. Há um senso de justiça e respeito nela que surpreende aqueles que a tomam como uma mera porra louca. Os comentários sobre os homens são engraçados sim (ela tem pena dos homens por esses possuírem pênis, e ter pênis, para ela, é estar propenso a fazer merda.) Como escritora? É dispensável. Ela é uma, para usar o termo cunhado por Luciana Gimenez, "entretenedora" -- até nos livros.
A Rita Lee é cool. Faz-me rir. Muito longe também do estereótipo de roqueira maconheira. Muito agradável e tem alguma profundidade. Ri muito quando ela mostrou o dedinho (deu cotoco) pra uma telespectadora que reclamou-lhe o uso do termo "crioulo".
E a Mônica é uma mulher adorável. Ternamente inteligente, e ao mesmo tempo firme. É Meiga. Possui beleza greco-romana, bastante simétrica, de doçura seca. Outro dia a vi dizendo que todos a querem enganar... Achei lindo. Eu casaria com ela, agora.
A tal de Marisa Orth é muito burrinha. Irrita-me deveras. Aquela falta do que dizer preenchida a pancadas com informações confusas e mal digeridas vindas de fontes do naipe de Superinteressante, Discovery Channel and so forth é de lascar. Que mulher burra, meu Deus!
A Fernanda Young tem uma personalidade interessante. Gosto dela. Há um senso de justiça e respeito nela que surpreende aqueles que a tomam como uma mera porra louca. Os comentários sobre os homens são engraçados sim (ela tem pena dos homens por esses possuírem pênis, e ter pênis, para ela, é estar propenso a fazer merda.) Como escritora? É dispensável. Ela é uma, para usar o termo cunhado por Luciana Gimenez, "entretenedora" -- até nos livros.
A Rita Lee é cool. Faz-me rir. Muito longe também do estereótipo de roqueira maconheira. Muito agradável e tem alguma profundidade. Ri muito quando ela mostrou o dedinho (deu cotoco) pra uma telespectadora que reclamou-lhe o uso do termo "crioulo".
E a Mônica é uma mulher adorável. Ternamente inteligente, e ao mesmo tempo firme. É Meiga. Possui beleza greco-romana, bastante simétrica, de doçura seca. Outro dia a vi dizendo que todos a querem enganar... Achei lindo. Eu casaria com ela, agora.
28.12.03
Recursos escassos, Ética escassa
Sim, o primeiro lugar é o lugar de apenas uma pessoa. A chefia é monocrática.
Os recursos são escassos. Não tem pra todo mundo. Enquanto um goza, muitos podem apenas observar. E quanto maior é a escassez, maior também é a prática milenar de puxar o tapete, manipular e dissimular.
Como tem gente filha da puta neste mundo, não? Num país como o Brasil, que está estagnado há uns 20 anos, a filhadaputice é ainda maior. Como abocanhar um quinhão cada vez mais raro senão apelando para todos os meios?
Os recursos são escassos. Não tem pra todo mundo. Enquanto um goza, muitos podem apenas observar. E quanto maior é a escassez, maior também é a prática milenar de puxar o tapete, manipular e dissimular.
Como tem gente filha da puta neste mundo, não? Num país como o Brasil, que está estagnado há uns 20 anos, a filhadaputice é ainda maior. Como abocanhar um quinhão cada vez mais raro senão apelando para todos os meios?
Este blog
Tem muita mentira neste blog. É interessante a série de camadas que interpomos entre nosso SELF e nossas ações. Tudo em busca de defesas? Penso que não apenas. É imaturidade mesmo, ao fim e ao cabo. Não sabemos bem o que queremos nem o que somos, e por isso mimetizamos certos arquétipos superficiais e bem aceitos, e com isso lavamos as mãos e os pés. Mas resta lá no fundo a sensação de que fomos sujos com nós mesmos, e quanto maior a sensação, mais angustiados ficamos. Uma luta que deve ser travada: parecermos limpos aos nossos olhos, quando olhamo-nos no espelho nus, após um belo banho.
O saber pelo saber
Um homem de conhecimento cava abismos com os próprios pés, mãos e com tudo que lhe for possível, e o faz de maneira desesperada, pois sabe que o tempo é-lhe curto. Um homem de conhecimento não tem medo do amor não correspondido, de passar vergonha, de ser traído, muito menos da morte. Ele antes, de forma dissimulada, faz as situações chegarem ao limite possível, ao limite de sua dor que deveras sente, ao limite do que a experiência pode mostrar-lhe.
Tudo pela Ciência? O saber pelo saber? Sim, trata-se disso com certeza. Mas é-lhe fundamental o reconhecimento social: ele PRECISA ser tido como homem de conhecimento. Algo errado nisso? Creio que não, todos PRECISAMOS ser tidos como o que somos, ou como o que gostaríamos de ser. É uma das lutas fundamentais da vida. Quais as outras?
O grande problema de termos tipos minoritários, e o homem de conhecimento possui um tipo dos menos freqüentes, é a dificuldade em ser reconhecido e respeitado como tal. Não apenas porque as pessoas em geral são toscas (não há um grande livro que não coloque a maioria da humanidade como tosca), mas porque, para realizar-se como tal, o homem de conhecimento precisa de ÓCIO e RECURSOS. Repito aqui, de memória, a pergunta de Adorno: é possível imaginar Nietzsche trabalhando como operário da VW, algo como o que prega a CLT: 8 horas diárias e 44 horas semanais? Ele morreria "before than expected".
Tudo pela Ciência? O saber pelo saber? Sim, trata-se disso com certeza. Mas é-lhe fundamental o reconhecimento social: ele PRECISA ser tido como homem de conhecimento. Algo errado nisso? Creio que não, todos PRECISAMOS ser tidos como o que somos, ou como o que gostaríamos de ser. É uma das lutas fundamentais da vida. Quais as outras?
O grande problema de termos tipos minoritários, e o homem de conhecimento possui um tipo dos menos freqüentes, é a dificuldade em ser reconhecido e respeitado como tal. Não apenas porque as pessoas em geral são toscas (não há um grande livro que não coloque a maioria da humanidade como tosca), mas porque, para realizar-se como tal, o homem de conhecimento precisa de ÓCIO e RECURSOS. Repito aqui, de memória, a pergunta de Adorno: é possível imaginar Nietzsche trabalhando como operário da VW, algo como o que prega a CLT: 8 horas diárias e 44 horas semanais? Ele morreria "before than expected".
25.12.03
Cartola
Cartola não só fundou a escola de samba Estação Primeira de Mangueira como lhe deu nome e as cores verde e rosa (para quem dizia que as cores não combinavam, ele respondia : "Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?").
A música abaixo foi composta quando a filha dele queria sair de casa.
Mundo é um Moinho
Ainda é cedo amor
Mal comecaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atençao querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
19.12.03
Fernando Pessoa
MAR PORTUGUEZ
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
3.12.03
Saciando a vossa curiosidade sobre o autor deste blog
A cada novo post, surgem versões renovadas sobre o caráter deste impoluto autor que escreve essas "mal digitadas". Como a má-fé chegou aos píncaros da insanidade mais demente e frívola após o retrato do Nerdrum (acusaram-me de pederasta!) creio que já é tempo de desvelar quem eu sou.
Não sou mulher, primeiramente. Embora escreva sobre elas com precisão de laser cirúrgico, conhecedor que sou de todos os atalhos, de todas as veredas da alma desses seres tão imprevisíveis quanto... quanto... ora o que não é imprevisível neste mundo?
Também não passo a vida a pensar em sexo. Se escrevo sobre esse tema milenar é porque... deve ser porque eu seja Ph.D. no assunto, ora.
Infelizmente não posso fornecer minha foto aqui no blog. Embora eu seja belo, dono de beleza grega clássica, desde que vi uma montagem mostrando a Sandy dando pro Maguila fiquei assaz aterrorizado com a maldade alheia.
Sim, os textos são meus de facto. Não são cópias de algum autor clássico, de um mestre da linguagem. São meus. Sei que posso melhorá-los, mas o tempo é-me parco. Fazer o quê? Ademais, "isto é apenas um blog".
Por fim, um conselho amigo: sei que rapazes estão a copiar-me para impressionar garotas que adoram homens intelectuais, homens de grande cultura e sapiência. Não o façam. Um dia elas saberão que são meus os textos e vão querer dar pra mim.
Sejam sempre vocês mesmos! A sinceridade é o que vale!
Beijo no coração!
Não sou mulher, primeiramente. Embora escreva sobre elas com precisão de laser cirúrgico, conhecedor que sou de todos os atalhos, de todas as veredas da alma desses seres tão imprevisíveis quanto... quanto... ora o que não é imprevisível neste mundo?
Também não passo a vida a pensar em sexo. Se escrevo sobre esse tema milenar é porque... deve ser porque eu seja Ph.D. no assunto, ora.
Infelizmente não posso fornecer minha foto aqui no blog. Embora eu seja belo, dono de beleza grega clássica, desde que vi uma montagem mostrando a Sandy dando pro Maguila fiquei assaz aterrorizado com a maldade alheia.
Sim, os textos são meus de facto. Não são cópias de algum autor clássico, de um mestre da linguagem. São meus. Sei que posso melhorá-los, mas o tempo é-me parco. Fazer o quê? Ademais, "isto é apenas um blog".
Por fim, um conselho amigo: sei que rapazes estão a copiar-me para impressionar garotas que adoram homens intelectuais, homens de grande cultura e sapiência. Não o façam. Um dia elas saberão que são meus os textos e vão querer dar pra mim.
Sejam sempre vocês mesmos! A sinceridade é o que vale!
Beijo no coração!
Máximas da titia Cocotinha
Toda a realidade é um produto da imaginação.
The whole of reality is a product of imagination.
Toute la réalité est un produit de l'imagination.
Die ganze Wirklichkeit ist ein Produkt der Phantasie.
The whole of reality is a product of imagination.
Toute la réalité est un produit de l'imagination.
Die ganze Wirklichkeit ist ein Produkt der Phantasie.
24.11.03
A explicação perdeu-se na dor
-- Então o senhor alega que sua família é culpada por esse surto psicótico?
-- O senhor precisa aceitar isso, doutor. É a mais límpida verdade. Já não tenho mais forças pra explicar. Há anos venho repetindo a mesma história. O que aconteceu hoje foi o ápice de um longuíssimo processo. Já não sei mais o que é certo, o que é errado. Minha cabeça pesa. As idéias estão enevoadas. Tenho certa dificuldade agora para raciocinar.
-- O senhor precisa de um tratamento. Está imaginando inimigos. Todos querem o seu bem. Vou encaminhar você para um colega de muita competência. Se ele não fosse competente, eu não o indicaria.
-- Doutor, o senhor não pode fazer isso comigo. Sou uma vítima! uma vítima! minha razão está sumindo... estou enlouquecendo... Precisa acreditar em mim!
-- Veja bem. Pela minha experiência nesses assuntos, pude notar que não existem vítimas, tudo é uma dinâmica em que os papéis não são definidos, mas se interpenetram. Não há bandidos nem vilões, há seres humanos que ora são vítimas; ora se vitimizam para conseguir atenção; e ora são vilões.
-- Doutor, sempre fui um homem respeitado, escrevo artigos científicos, tenho Doutorado até. Não pode achar que sou louco, que imagino coisas, que não sou vítima da omissão, da manipulação, da mentira, da mesquinhez, do sadismo de minha família!!! Não estou criando isso!!! Não estou usando a situação para chamar a atenção de ninguém!!! Eu preciso de ajuda!!! Eu estou pedindo ajuda!!!
-- Acalme-se. O senhor ainda não conseguiu convenver-me de nada disso que alega. Só vi acusações sem provas. O senhor pensa estar no centro do mundo.
-- Ora, seu canalha! Você pensa que é fácil reproduzir todos esses acontecimentos de anos e anos, cheios de sutilezas, de agressões, de decepções?! Canalha! Incompetente! Você não sabe de nada! Deveria ser preso! Incompetente!!! Por culpa de pessoas como você vários seres humanos têm a vida arruinada!!! Canalha!!!
Ouviu tudo aquilo impavidamente. Antes de virar as costas e sair pela porta, ainda deu um sorriso de canto de boca, e disse: "passar bem, senhor."
-- O senhor precisa aceitar isso, doutor. É a mais límpida verdade. Já não tenho mais forças pra explicar. Há anos venho repetindo a mesma história. O que aconteceu hoje foi o ápice de um longuíssimo processo. Já não sei mais o que é certo, o que é errado. Minha cabeça pesa. As idéias estão enevoadas. Tenho certa dificuldade agora para raciocinar.
-- O senhor precisa de um tratamento. Está imaginando inimigos. Todos querem o seu bem. Vou encaminhar você para um colega de muita competência. Se ele não fosse competente, eu não o indicaria.
-- Doutor, o senhor não pode fazer isso comigo. Sou uma vítima! uma vítima! minha razão está sumindo... estou enlouquecendo... Precisa acreditar em mim!
-- Veja bem. Pela minha experiência nesses assuntos, pude notar que não existem vítimas, tudo é uma dinâmica em que os papéis não são definidos, mas se interpenetram. Não há bandidos nem vilões, há seres humanos que ora são vítimas; ora se vitimizam para conseguir atenção; e ora são vilões.
-- Doutor, sempre fui um homem respeitado, escrevo artigos científicos, tenho Doutorado até. Não pode achar que sou louco, que imagino coisas, que não sou vítima da omissão, da manipulação, da mentira, da mesquinhez, do sadismo de minha família!!! Não estou criando isso!!! Não estou usando a situação para chamar a atenção de ninguém!!! Eu preciso de ajuda!!! Eu estou pedindo ajuda!!!
-- Acalme-se. O senhor ainda não conseguiu convenver-me de nada disso que alega. Só vi acusações sem provas. O senhor pensa estar no centro do mundo.
-- Ora, seu canalha! Você pensa que é fácil reproduzir todos esses acontecimentos de anos e anos, cheios de sutilezas, de agressões, de decepções?! Canalha! Incompetente! Você não sabe de nada! Deveria ser preso! Incompetente!!! Por culpa de pessoas como você vários seres humanos têm a vida arruinada!!! Canalha!!!
Ouviu tudo aquilo impavidamente. Antes de virar as costas e sair pela porta, ainda deu um sorriso de canto de boca, e disse: "passar bem, senhor."
16.11.03
Obnubilado
Um corredor. Ao fim dele um quadro. Sem poder ver o que está na tela, desejo fortemente chegar a ele e conhecer seu conteúdo, bem de perto. Ando a passos largos. As paredes não se estreitam, como em parábolas narrativas kafkianas, mas alargam-se. À medida que me aproximo, o quadro vai ganhando contornos. Parece interessante, mas não tanto. O caminho, que era linear, abre-se cada vez mais. Forma-se um plano. A sensação primeira de falta de opções dá lugar a uma sensação de liberdade e essa, por sua vez, dá lugar a uma sensação de angústia. Quando chego bem perto do quadro já não o tenho em grande conta. Noto que a figura é tola, as cores são desagradáveis, o pintor não é talentoso. Reparo que estou no meio de um enorme plano, e no horizonte, por todos os lados, nuvens sugerem algo. Olho com desdém para o quadro e dou de ombros. Giro meu corpo 90 graus e vou em frente. Depois de dias caminhando, percebo o abismo. Tento retornar, e outro abismo. Vejo, muito longe, o quadro. Vejo nuvens sugerindo algo, no horizonte. Meus pés estão agora numa pequena porção de chão. Equilibro-me como posso. O abismo em derredor.
13.11.03
As contradições são deste mundo...
Era um jovem universitário, estudante de Economia, área esmagadoramente dominada por autores e livros vindos dos EUA.
Os cabelos foram lavados com algum shampoo do megagrupo norte-americano Procter & Gamble. Havia também, naquela manhã, feito a barba com uma lâmina da também norte-americana Gillete. Usou o creme pós-barba da alemã Nívea. Como iria passar horas sob o sol, achou por bem usar o protetor solar da francesa L'Oréal.
Nos pés, um caríssimo tênis da alemã Adidas, porém feito na China. Usava um jeans Levis, norte-americano. A camiseta era da Hering, brasileira (embora fundada por imigrantes alemães). Nela, podíamos ler em destaque a conhecida frase do médico argentino, e líder da Revolução Cubana, Ernesto "Che" Guevara: "hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamas!".
Soube daquela passeata na noite anterior, ao receber em seu computador da marca japonesa Sony, com processador norte-americano AMD, monitor holandês Philips e leitor de CDs coreano, da LG, um e-mail de amigos, alegando já não poderem mais ser coniventes com aquele estado de coisas.
Caminhava e gritava:
-- Não a um novo acordo com o FMI! Não à Globalização! Fora capitalismo internacional! Não ao superávit primário!
Depois da passeata, voltou à faculdade, entrou em seu francês Renault e foram comer algo no Shopping Center, invenção americana. Não, eles não comeram no americano MacDonald's, e sim na americana Pizza Hut, que se tornou a maior vendedora do mundo de um produto inventado na Itália -- a pizza.
Os cabelos foram lavados com algum shampoo do megagrupo norte-americano Procter & Gamble. Havia também, naquela manhã, feito a barba com uma lâmina da também norte-americana Gillete. Usou o creme pós-barba da alemã Nívea. Como iria passar horas sob o sol, achou por bem usar o protetor solar da francesa L'Oréal.
Nos pés, um caríssimo tênis da alemã Adidas, porém feito na China. Usava um jeans Levis, norte-americano. A camiseta era da Hering, brasileira (embora fundada por imigrantes alemães). Nela, podíamos ler em destaque a conhecida frase do médico argentino, e líder da Revolução Cubana, Ernesto "Che" Guevara: "hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamas!".
Soube daquela passeata na noite anterior, ao receber em seu computador da marca japonesa Sony, com processador norte-americano AMD, monitor holandês Philips e leitor de CDs coreano, da LG, um e-mail de amigos, alegando já não poderem mais ser coniventes com aquele estado de coisas.
Caminhava e gritava:
-- Não a um novo acordo com o FMI! Não à Globalização! Fora capitalismo internacional! Não ao superávit primário!
Depois da passeata, voltou à faculdade, entrou em seu francês Renault e foram comer algo no Shopping Center, invenção americana. Não, eles não comeram no americano MacDonald's, e sim na americana Pizza Hut, que se tornou a maior vendedora do mundo de um produto inventado na Itália -- a pizza.
27.10.03
25.10.03
Poesia: Vinícius de Moraes
Vinícius é subestimado. Quando o chamam de "poetinha", por vezes o que subjaz é o desprezo, e não o aspecto afetuoso do diminutivo.
É famoso o que Melo Neto disse a Vinícius: "se não for de amor, você não sabe fazer, né?"
Drummond considerava o poema que se segue como uma espécie de resumo da condição humana. A opinão, além de vir de uma autoridade no assunto, é acertada.
O verbo no infinito
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
É famoso o que Melo Neto disse a Vinícius: "se não for de amor, você não sabe fazer, né?"
Drummond considerava o poema que se segue como uma espécie de resumo da condição humana. A opinão, além de vir de uma autoridade no assunto, é acertada.
O verbo no infinito
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
13.10.03
11.10.03
Diálogo 3
-- No verdadeiro amor, ama-se a essência da pessoa.
-- Não existe tal essência.
-- Existe sim. No verdadeiro amor, sabe-se aquilo que a pessoa era no momento da criação. O que Deus tinha em mente quando a criou. Alcança-se, parafraseando Hegel, o que Deus pensou antes de pôr o ser amado no mundo.
-- Ah, pára com isso. Amamos pessoas de carne e osso, com uma história de vida, com sonhos e frustrações, com êxitos e fracassos, com o modo de ver o mundo influenciado pela profissão, família e meio em geral no qual vive e viveu.
-- Não. Você não sabe o que é o amor. Ele faz-nos intuir essa essência, passamos através de toda essa casca criada pela vida e chegamos à alma do ser amado, e quando isso acontece é divino.
-- Bela ilusão a sua. Reconheço que é bela.
-- Não é ilusão. Sei que isso existe.
-- Sabe? Espera encontrar algo assim? Vai ficar sozinha por quanto tempo mais? "Não se unem almas, apenas corpos." Manuel Bandeira estava certo, pô.
-- Acontece com raridade. Talvez com uma freqüência maior do que aquela dita por Camus. Não duas ou três vezes por século. É raro. Eu daria tudo para ter essa sorte. Eu não deixo de aperfeiçoar meu espírito e minha sensibilidade. Não deixo de observar as pessoas. Perdoe-me a expressão, mas o ser a ser amado pode estar por perto...
-- Tá bom... Mal sabe você que os homens só pensam em sexo. A razão da vida de um homem chama-se "boceta". Tome isso como uma metonímia do interesse do homem: queremos uma mulher gostosa, e mais outra, e mais outra. Queremos tê-la. Queremos desfilar com ela. Mostrar para todos quem estamos comendo. Fazer inveja para os outros homens e atrair mais mulheres.
-- Atrair mais mulheres?
-- Sim. Não venha me dizer que você não sabe que as mulheres, ao ver-nos bem acompanhados, ficam como que curiosas, querendo saber quem é o cara que anda comendo fulana.
-- Oh. Lamentável. Lamentável. Lamentável.
-- Não existe tal essência.
-- Existe sim. No verdadeiro amor, sabe-se aquilo que a pessoa era no momento da criação. O que Deus tinha em mente quando a criou. Alcança-se, parafraseando Hegel, o que Deus pensou antes de pôr o ser amado no mundo.
-- Ah, pára com isso. Amamos pessoas de carne e osso, com uma história de vida, com sonhos e frustrações, com êxitos e fracassos, com o modo de ver o mundo influenciado pela profissão, família e meio em geral no qual vive e viveu.
-- Não. Você não sabe o que é o amor. Ele faz-nos intuir essa essência, passamos através de toda essa casca criada pela vida e chegamos à alma do ser amado, e quando isso acontece é divino.
-- Bela ilusão a sua. Reconheço que é bela.
-- Não é ilusão. Sei que isso existe.
-- Sabe? Espera encontrar algo assim? Vai ficar sozinha por quanto tempo mais? "Não se unem almas, apenas corpos." Manuel Bandeira estava certo, pô.
-- Acontece com raridade. Talvez com uma freqüência maior do que aquela dita por Camus. Não duas ou três vezes por século. É raro. Eu daria tudo para ter essa sorte. Eu não deixo de aperfeiçoar meu espírito e minha sensibilidade. Não deixo de observar as pessoas. Perdoe-me a expressão, mas o ser a ser amado pode estar por perto...
-- Tá bom... Mal sabe você que os homens só pensam em sexo. A razão da vida de um homem chama-se "boceta". Tome isso como uma metonímia do interesse do homem: queremos uma mulher gostosa, e mais outra, e mais outra. Queremos tê-la. Queremos desfilar com ela. Mostrar para todos quem estamos comendo. Fazer inveja para os outros homens e atrair mais mulheres.
-- Atrair mais mulheres?
-- Sim. Não venha me dizer que você não sabe que as mulheres, ao ver-nos bem acompanhados, ficam como que curiosas, querendo saber quem é o cara que anda comendo fulana.
-- Oh. Lamentável. Lamentável. Lamentável.
24.9.03
23.9.03
Masculino 6
Pedro
Fazia uns dois anos que não se falavam:
-- Oi, Pedro! Como vai? Há quanto tempo!
Depois, a pergunta:
-- Casou?
-- Não. Ainda não consegui encontrar a pessoa certa. E tu?
-- Eu casei. Desculpe-me por não tê-lo convidado para a cerimônia.
-- Ah, não tem problema.
Seguiu-se um pequeno intervalo de silêncio, que Pedro apressou-se em preencher, de forma jocosa:
-- E aí, já arrumaste um amante? Tu sabes, toda mulher casada precisa de um amante.
-- Ah, Pedro! Você continua o mesmo galanteador de sempre!
-- Mas é sério. Tuas amigas não falam pra ti?
-- Perdi o contato com todas elas. Hoje em dia, Pedro, você não vai acreditar, mas eu vivo apenas para o meu marido.
-- Estás feliz?
-- Sim. Estou.
Sentindo o tom desanimado da resposta, e por força do hábito de ser ousado com as mulheres, como que querendo provar a si mesmo que consegue todas, Pedro continuou, arriscando ter o telefone desligado na própria cara:
-- Mas isso é um desperdício! Ainda tens aquelas coxas? aquela bunda? aqueles seios?
-- Ei! Calma, Pedro! Sou casada agora!
-- Mas tu eras um escândalo.
-- Ah, é?! e por que você deixou de sair comigo?! (sorri)
-- Ah, tu sabes, naquela idade eu não sabia dar valor ao que era realmente bom. Queria todas. Com o tempo os homens vão ficando seletivos, deixam de ser tão infiéis.
-- Entendo. Mas você nem namorando está?
-- Estou. Há um ano.
-- Gosta dela?
-- Gosto sim, mas tenho consciência de nossas diferenças.
Pedro então decidiu arriscar tudo, numa espécie de golpe fatal:
-- E então? quando nos veremos?
-- Pedro!
-- Não tens vontade de ver-me novamente? saber como estou fisicamente? eu tenho curiosidade de ver-te.
Ela riu. Riu muito alto. Pedro continuou numa estranha obstinação, enquanto folheava uma revista.
-- Trabalho perto do edifício do BNB. Que tal um cinema na hora do almoço?
-- Olha, eu vou. Mas veja bem: amigos, okay? amigos!
-- Claro.
Todas as terças-feiras, na hora do almoço, iam a um motel perto da praia, durante um mês e meio. Foi quando Pedro ligou numa segunda e disse que no dia seguinte não iria ter intervalo para almoço. Nunca mais falaram-se.
Fazia uns dois anos que não se falavam:
-- Oi, Pedro! Como vai? Há quanto tempo!
Depois, a pergunta:
-- Casou?
-- Não. Ainda não consegui encontrar a pessoa certa. E tu?
-- Eu casei. Desculpe-me por não tê-lo convidado para a cerimônia.
-- Ah, não tem problema.
Seguiu-se um pequeno intervalo de silêncio, que Pedro apressou-se em preencher, de forma jocosa:
-- E aí, já arrumaste um amante? Tu sabes, toda mulher casada precisa de um amante.
-- Ah, Pedro! Você continua o mesmo galanteador de sempre!
-- Mas é sério. Tuas amigas não falam pra ti?
-- Perdi o contato com todas elas. Hoje em dia, Pedro, você não vai acreditar, mas eu vivo apenas para o meu marido.
-- Estás feliz?
-- Sim. Estou.
Sentindo o tom desanimado da resposta, e por força do hábito de ser ousado com as mulheres, como que querendo provar a si mesmo que consegue todas, Pedro continuou, arriscando ter o telefone desligado na própria cara:
-- Mas isso é um desperdício! Ainda tens aquelas coxas? aquela bunda? aqueles seios?
-- Ei! Calma, Pedro! Sou casada agora!
-- Mas tu eras um escândalo.
-- Ah, é?! e por que você deixou de sair comigo?! (sorri)
-- Ah, tu sabes, naquela idade eu não sabia dar valor ao que era realmente bom. Queria todas. Com o tempo os homens vão ficando seletivos, deixam de ser tão infiéis.
-- Entendo. Mas você nem namorando está?
-- Estou. Há um ano.
-- Gosta dela?
-- Gosto sim, mas tenho consciência de nossas diferenças.
Pedro então decidiu arriscar tudo, numa espécie de golpe fatal:
-- E então? quando nos veremos?
-- Pedro!
-- Não tens vontade de ver-me novamente? saber como estou fisicamente? eu tenho curiosidade de ver-te.
Ela riu. Riu muito alto. Pedro continuou numa estranha obstinação, enquanto folheava uma revista.
-- Trabalho perto do edifício do BNB. Que tal um cinema na hora do almoço?
-- Olha, eu vou. Mas veja bem: amigos, okay? amigos!
-- Claro.
Todas as terças-feiras, na hora do almoço, iam a um motel perto da praia, durante um mês e meio. Foi quando Pedro ligou numa segunda e disse que no dia seguinte não iria ter intervalo para almoço. Nunca mais falaram-se.
16.9.03
Feminino 6
Rita
Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Restamos eu, minha irmã de cinco e meu irmão de dezesseis anos. Quatro anos depois minha mãe trouxe outro homem para dentro de casa. Depois de alguns meses morando lá, ele veio à cama onde eu e meus irmãos dormíamos e estuprou-me.
Minha irmã fingiu dormir, mal conseguiu olhar. Meu irmão assistiu a tudo, olhos entreabertos, também fingindo dormir. Eu mal pude acreditar, fiquei paralisada, como um pedaço de carne, enquanto aquele homem gordo e velho estava em cima de mim. Quando terminou ele disse que fez antes aquilo que outros haveriam de fazer. Disse que eu nada dissesse a ninguém, sob pena de alguma retaliação por parte dele.
No dia seguinte contei à minha mãe. Ela disse que eu houvera sonhado. Depois disse que eu estava mentindo (o que é a mesma coisa). Depois ainda disse que eu queria estragar a felicidade dela: ela tinha já certa idade e não conseguiria arrumar outro homem.
Fiquei então sem saber o que fazer. Por um lado puni-lo, por outro estragar a relação de minha mãe.
Calei-me. Sofri em silêncio por minha mãe. Dois meses passaram-se. Ele chega de madrugada bêbado (o que vinha repetindo-se amiúde). Busca a mim na mesma cama. Mal pude esconder o horror. Começa a estuprar-me novamente. De repente um grito: meu irmão havia-lhe cravado uma faca nas costas.
Hoje visito meu irmão na cadeia. Minha irmã prostitui-se. Jamais consegui terminar meus estudos nem manter relações duradouras com homem algum. Minha mãe sumiu de nossas vidas. Dizem que vive com um guardador de carros em Recife.
Chamem isso de tragédia cotidiana familiar.
Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Restamos eu, minha irmã de cinco e meu irmão de dezesseis anos. Quatro anos depois minha mãe trouxe outro homem para dentro de casa. Depois de alguns meses morando lá, ele veio à cama onde eu e meus irmãos dormíamos e estuprou-me.
Minha irmã fingiu dormir, mal conseguiu olhar. Meu irmão assistiu a tudo, olhos entreabertos, também fingindo dormir. Eu mal pude acreditar, fiquei paralisada, como um pedaço de carne, enquanto aquele homem gordo e velho estava em cima de mim. Quando terminou ele disse que fez antes aquilo que outros haveriam de fazer. Disse que eu nada dissesse a ninguém, sob pena de alguma retaliação por parte dele.
No dia seguinte contei à minha mãe. Ela disse que eu houvera sonhado. Depois disse que eu estava mentindo (o que é a mesma coisa). Depois ainda disse que eu queria estragar a felicidade dela: ela tinha já certa idade e não conseguiria arrumar outro homem.
Fiquei então sem saber o que fazer. Por um lado puni-lo, por outro estragar a relação de minha mãe.
Calei-me. Sofri em silêncio por minha mãe. Dois meses passaram-se. Ele chega de madrugada bêbado (o que vinha repetindo-se amiúde). Busca a mim na mesma cama. Mal pude esconder o horror. Começa a estuprar-me novamente. De repente um grito: meu irmão havia-lhe cravado uma faca nas costas.
Hoje visito meu irmão na cadeia. Minha irmã prostitui-se. Jamais consegui terminar meus estudos nem manter relações duradouras com homem algum. Minha mãe sumiu de nossas vidas. Dizem que vive com um guardador de carros em Recife.
Chamem isso de tragédia cotidiana familiar.
10.9.03
Metablog 5
Explicação necessária
Como sempre me perguntam se essas histórias da série Masculino e da Feminino são reais, decidi, por precaução, expor a resposta no próprio blog: NÃO, ELAS SÃO TODAS FICTÍCIAS. Embora, é claro, algum elemento possa ter se passado comigo ou com amigos ou amigas que me relatam experiências.
Em suma elas SÓ OCORRERAM NA MINHA IMAGINAÇÃO.
Isso deveria ser desnecessário dizer. Mas é bom ter precaução para não ser acusado de certas coisas.
Como sempre me perguntam se essas histórias da série Masculino e da Feminino são reais, decidi, por precaução, expor a resposta no próprio blog: NÃO, ELAS SÃO TODAS FICTÍCIAS. Embora, é claro, algum elemento possa ter se passado comigo ou com amigos ou amigas que me relatam experiências.
Em suma elas SÓ OCORRERAM NA MINHA IMAGINAÇÃO.
Isso deveria ser desnecessário dizer. Mas é bom ter precaução para não ser acusado de certas coisas.
Masculino 5
André
Em frente à minha casa há uma avenida. Seguindo por essa avenida no sentido oposto ao da praia, chamado sentido praia-sertão, alguns poucos quilômetros depois, no segundo semáforo, dobro à esquerda e estou defronte à casa de minha pequena.
Como temos três anos de namoro, pode-se imaginar quantas vezes percorri esse trajeto. O que não se pode imaginar facilmente é o que há ao longo dele: meninas de catorze anos, se tanto, à beira da pista, oferecendo-se por grana.
São sempre as mesmas. Paupérrimas. Em trajes curtos: apenas um pequeno short de tecido fino, o que permite que se veja a calcinha, e uma espécie de bustiê igualmente em tecido fino, o que permite que se note bem a forma dos seios. O semblante delas é sempre o mesmo: de braços cruzados, convidando com o olhar e com o corpo todos os motoristas. Às vezes papeando entre si, rosto alegre, às vezes contrariadas com o baixo movimento.
Terrível, não? Fere tudo aquilo que entendemos como dignidade da pessoa humana e como zelo especial pelas crianças, seres frágeis e que precisam de cuidados especiais por não terem ainda um correto discernimento para fazer escolhas responsáveis. Uma pessoa que paga uma menina dessas em troca de sexo só pode ser um crápula. Aproveita-se ignominiosamente da pobreza e da ingenuidade dessas crianças para satisfazer os próprios distúrbios sexuais. Vê a elas como animais que podem ser usados sem que ninguém reclame a favor delas.
Pois eu sou um crápula. O mais vil dos crápulas.
Na esquina em que ela estava dobrei. O local era ermo. Parei um pouco à frente, desliguei o carro e as luzes, e vi pelo retrovisor que ela vinha a mim. Debruçou-se na janela do carro e não disse nada. Olhou para mim esperando pela minha oferta.
-- Quanto é pra chupar? eu disse.
-- Cinco reais.
Não pude acreditar que fosse tão barato algo tão contra a moral. Uns quinze anos e com aquela tranqüilidade chupa por cinco reais?! Olho bem para o rosto e noto que ela era bela. Pobre sim. Mas a pouca idade ainda não havia permitido que a aspereza da vida pobre se refletisse no rosto, no olhar, no corpo. Ela era bela! Claro que o cabelo era descuidado, e a pele jamais recebera cremes. Mas a pobreza e o descuido ainda não haviam cobrado seu preço no que se refere ao fenótipo.
Não dormi bem naquela noite. Fiquei enojado de mim. Fiquei confuso. O sentimento de culpa, a censura, o superego freudiano, todos eles juntos massacravam-me. Queria justificar meu ato para mim, mas não conseguia. Comecei a perder o interesse pelo sexo. Lembrava-me do rosto dela e procurava notar algum traço de sofrimento, de dor pelo que a pobreza a obrigara a fazer, mas nada disso encontrava. Pior: parecia que era natural a ela, parecia até que ela gostava de alguma forma. Nada nela me recriminava. Durante um mês evitei minha namorada. Depois do cinema eu dizia: estou cansado. Nunca mais vi o sexo da mesma forma.
Em frente à minha casa há uma avenida. Seguindo por essa avenida no sentido oposto ao da praia, chamado sentido praia-sertão, alguns poucos quilômetros depois, no segundo semáforo, dobro à esquerda e estou defronte à casa de minha pequena.
Como temos três anos de namoro, pode-se imaginar quantas vezes percorri esse trajeto. O que não se pode imaginar facilmente é o que há ao longo dele: meninas de catorze anos, se tanto, à beira da pista, oferecendo-se por grana.
São sempre as mesmas. Paupérrimas. Em trajes curtos: apenas um pequeno short de tecido fino, o que permite que se veja a calcinha, e uma espécie de bustiê igualmente em tecido fino, o que permite que se note bem a forma dos seios. O semblante delas é sempre o mesmo: de braços cruzados, convidando com o olhar e com o corpo todos os motoristas. Às vezes papeando entre si, rosto alegre, às vezes contrariadas com o baixo movimento.
Terrível, não? Fere tudo aquilo que entendemos como dignidade da pessoa humana e como zelo especial pelas crianças, seres frágeis e que precisam de cuidados especiais por não terem ainda um correto discernimento para fazer escolhas responsáveis. Uma pessoa que paga uma menina dessas em troca de sexo só pode ser um crápula. Aproveita-se ignominiosamente da pobreza e da ingenuidade dessas crianças para satisfazer os próprios distúrbios sexuais. Vê a elas como animais que podem ser usados sem que ninguém reclame a favor delas.
Pois eu sou um crápula. O mais vil dos crápulas.
Na esquina em que ela estava dobrei. O local era ermo. Parei um pouco à frente, desliguei o carro e as luzes, e vi pelo retrovisor que ela vinha a mim. Debruçou-se na janela do carro e não disse nada. Olhou para mim esperando pela minha oferta.
-- Quanto é pra chupar? eu disse.
-- Cinco reais.
Não pude acreditar que fosse tão barato algo tão contra a moral. Uns quinze anos e com aquela tranqüilidade chupa por cinco reais?! Olho bem para o rosto e noto que ela era bela. Pobre sim. Mas a pouca idade ainda não havia permitido que a aspereza da vida pobre se refletisse no rosto, no olhar, no corpo. Ela era bela! Claro que o cabelo era descuidado, e a pele jamais recebera cremes. Mas a pobreza e o descuido ainda não haviam cobrado seu preço no que se refere ao fenótipo.
Não dormi bem naquela noite. Fiquei enojado de mim. Fiquei confuso. O sentimento de culpa, a censura, o superego freudiano, todos eles juntos massacravam-me. Queria justificar meu ato para mim, mas não conseguia. Comecei a perder o interesse pelo sexo. Lembrava-me do rosto dela e procurava notar algum traço de sofrimento, de dor pelo que a pobreza a obrigara a fazer, mas nada disso encontrava. Pior: parecia que era natural a ela, parecia até que ela gostava de alguma forma. Nada nela me recriminava. Durante um mês evitei minha namorada. Depois do cinema eu dizia: estou cansado. Nunca mais vi o sexo da mesma forma.
9.9.03
Arte: Gerald Thomas e a bunda murcha
Gerald Thomas baixou a calça e a cueca após ser vaiado no Teatro Municipal do Rio pelo público que foi assistir à sua versão da ópera Tristão e Isolda, de Wagner. Os homens de "espírito livre", e de bom gosto, que viram as imagens devem ter pensado: "porra, que bunda murcha e feia." Mas os homens em regra são moralistas, e moralistas de uma forma superficial, e a opinião que predominou foi a de que ele ofendeu a todos, não esteticamente, mas moralmente, ao colocar as parcas nádegas à mostra.
Gerald alegou que ofendeu quem o ofendeu. Afirmou também que o mostrar a bunda fez parte do espetáculo. Disse que o Brasil é o país das bundas. Que todos aqui ganham a vida com a bunda. Acima de tudo clamou pela liberdade de expressão artística, que supostamente deveria ser mais ampla do que a mera liberdade de expressão. Depois pediu desculpas a todos. O Ministério Público pode denunciá-lo na esfera criminal em breve com base no art. 233 do Código Penal: ato obsceno.
Vi apenas uma peça de Gerald: "Esperando Beckett", com Marília Gabriela. Vi também várias entrevistas que Gerald fez na TV-UOL e tive a curiosidade de ler alguns artigos escritos por ele no Jornal do Brasil. O que tenho a dizer sobre ele com base no que eu vi e li é apenas que não gosto dele, não tenho a menor admiração. Acho-o um embusteiro metido a espirituoso, a conhecedor de livros e de arte. Acho o modo com que ele trata as pessoas, sempre com ironiazinhas, sempre de forma a colocar-se acima, sempre ofensivo, merecedor da mais veemente reprovação. Acho-o um enorme espertalhão. Quem o acha interessante só o pode fazer por conta de ele citar (mal) autores europeus, por conta de ele falar alemão e coisas do gênero, as quais sempre impressionam os menos maduros. É cair numa esparrela sem tamanho.
Tão murcho e ofensivo quanto a bunda dele. Simples assim.
(As afirmações de antropologia cultural, filosóficas e literárias feitas por Gerald mereceriam uma análise à parte. Um dia fá-la-ei, creio.)
Gerald alegou que ofendeu quem o ofendeu. Afirmou também que o mostrar a bunda fez parte do espetáculo. Disse que o Brasil é o país das bundas. Que todos aqui ganham a vida com a bunda. Acima de tudo clamou pela liberdade de expressão artística, que supostamente deveria ser mais ampla do que a mera liberdade de expressão. Depois pediu desculpas a todos. O Ministério Público pode denunciá-lo na esfera criminal em breve com base no art. 233 do Código Penal: ato obsceno.
Vi apenas uma peça de Gerald: "Esperando Beckett", com Marília Gabriela. Vi também várias entrevistas que Gerald fez na TV-UOL e tive a curiosidade de ler alguns artigos escritos por ele no Jornal do Brasil. O que tenho a dizer sobre ele com base no que eu vi e li é apenas que não gosto dele, não tenho a menor admiração. Acho-o um embusteiro metido a espirituoso, a conhecedor de livros e de arte. Acho o modo com que ele trata as pessoas, sempre com ironiazinhas, sempre de forma a colocar-se acima, sempre ofensivo, merecedor da mais veemente reprovação. Acho-o um enorme espertalhão. Quem o acha interessante só o pode fazer por conta de ele citar (mal) autores europeus, por conta de ele falar alemão e coisas do gênero, as quais sempre impressionam os menos maduros. É cair numa esparrela sem tamanho.
Tão murcho e ofensivo quanto a bunda dele. Simples assim.
(As afirmações de antropologia cultural, filosóficas e literárias feitas por Gerald mereceriam uma análise à parte. Um dia fá-la-ei, creio.)
1.9.03
Imprensa: Artigos de Membros da Academia
Hábitos, por definição, não passam pelo crivo crítico da razão. Adotamos-los ou não. Mais preocupante ainda é quando nossos hábitos, mesmo após serem reprovados pelo crivo crítico da razão, ainda assim permanecem. Nesse caso eles talvez devam perder a denominação "hábito" e passarem a chamar-se "vício". É assim comigo: eu leio jornais e revistas. Pior: de várias partes do mundo, o que significa apenas ler a mesma coisa em diferentes versões e línguas, todas elas (as versões) igualmente superficiais. Impossível não me lembrar de Camus em "La Chute".
(Algumas pessoas surpreenderam-se quando viram-me mencionando Veja neste blog. Acham-na uma revista de péssimo nível. Concordo que ela o seja. Mas Veja é uma das 10 revistas mais lidas do mundo, e a mais lida do Brasil, o que torna a sua leitura quase que um dever de ofício. Mas não é isso apenas: o que mais me interessa em Veja não é o que ela traz, e sim analisá-la, fazer um discurso de caráter, se me permitem, "meta-Veja".)
Mas voltemos ao tema deste post, que não trata de Veja, e sim de algo de ainda pior nível. Na leitura de um jornal local de hoje, esbarrei com um texto horrível, de causar repugnância em qualquer pessoa de bom senso, escrito por um médico cearense. Foi o que me levou a escrever este post.
Como sabemos, todo texto ruim é feito a partir de uma série de clichês já testados e aprovados. São assim em geral (há sempre as exceções, ISSO DEVE SER BEM FRISADO) os artigos de membros da academia que escrevem para jornais locais, principalmente os profissionais da área médica e jurídica. Os exemplos abundam a cada dia, e não é preciso citar nomes nem fazer referências bibliográficas. É só abrir as páginas de opinião de O POVO ou de DIÁRIO DO NORDESTE. Recomendo o dia de domingo, o qual é um dia especial para essa gente.
As lições que esses seguem são:
1) buscar sempre uma palavra sinônima e supostamente mais erudita para por no lugar daquelas de uso corrente;
2) ter em mente que as idéias expostas, se é que haverá idéias expostas, podem ser simples, simplórias até, e que o importante é ter o artigo assinado no jornal e assim expor o próprio nome ao público;
3) mentir deslavadamente, de má-fé mesmo, exagerar as coisas em prol da tese ou idéia que se quer defender; ser unilateral, ser enviesado, tendencioso; alegar estar do lado da "sociedade". Lembrar-se da palavra mágica "sociedade". Por inverso: ser contra "os poderosos".
Com um artigo desses por mês em um grande jornal local você torna-se um homem honrado, respeitado, requerido para debates, congressos, seminários; seu nome estampará as placas de formatura, freqüentará as colunas sociais, será querido nas ruas, terá seu escritório ou consultório cheio.
Podem chamar essas lições de "O segredo do sucesso na sociedade alencarina."
Fortaleza é uma cidade provinciana.
(Algumas pessoas surpreenderam-se quando viram-me mencionando Veja neste blog. Acham-na uma revista de péssimo nível. Concordo que ela o seja. Mas Veja é uma das 10 revistas mais lidas do mundo, e a mais lida do Brasil, o que torna a sua leitura quase que um dever de ofício. Mas não é isso apenas: o que mais me interessa em Veja não é o que ela traz, e sim analisá-la, fazer um discurso de caráter, se me permitem, "meta-Veja".)
Mas voltemos ao tema deste post, que não trata de Veja, e sim de algo de ainda pior nível. Na leitura de um jornal local de hoje, esbarrei com um texto horrível, de causar repugnância em qualquer pessoa de bom senso, escrito por um médico cearense. Foi o que me levou a escrever este post.
Como sabemos, todo texto ruim é feito a partir de uma série de clichês já testados e aprovados. São assim em geral (há sempre as exceções, ISSO DEVE SER BEM FRISADO) os artigos de membros da academia que escrevem para jornais locais, principalmente os profissionais da área médica e jurídica. Os exemplos abundam a cada dia, e não é preciso citar nomes nem fazer referências bibliográficas. É só abrir as páginas de opinião de O POVO ou de DIÁRIO DO NORDESTE. Recomendo o dia de domingo, o qual é um dia especial para essa gente.
As lições que esses seguem são:
1) buscar sempre uma palavra sinônima e supostamente mais erudita para por no lugar daquelas de uso corrente;
2) ter em mente que as idéias expostas, se é que haverá idéias expostas, podem ser simples, simplórias até, e que o importante é ter o artigo assinado no jornal e assim expor o próprio nome ao público;
3) mentir deslavadamente, de má-fé mesmo, exagerar as coisas em prol da tese ou idéia que se quer defender; ser unilateral, ser enviesado, tendencioso; alegar estar do lado da "sociedade". Lembrar-se da palavra mágica "sociedade". Por inverso: ser contra "os poderosos".
Com um artigo desses por mês em um grande jornal local você torna-se um homem honrado, respeitado, requerido para debates, congressos, seminários; seu nome estampará as placas de formatura, freqüentará as colunas sociais, será querido nas ruas, terá seu escritório ou consultório cheio.
Podem chamar essas lições de "O segredo do sucesso na sociedade alencarina."
Fortaleza é uma cidade provinciana.
25.8.03
Diálogo 2
-- Existem duas posturas ao escrever: escrever pra si ou escrever pra ser lido. Quem escreve pra si não precisa se deter a nenhum ditame moral; quem escreve para outrem, deve tratá-lo com respeito.
-- Se alguém põe seus pensamentos ou sentimentos num papel, sempre há o desejo, por mais recôndito que seja, de ser lido, um dia... Caso contrário, por que diabos fá-lo-ia?
-- Falo do que predomina. Algumas pessoas escrevem predominantemente por uma necessidade de ordem interna. Se elas não escrevessem, como diz Rilke sobre os verdadeiros escritores, morreriam.
-- E esse moralismo ao escrever a outrem? Parece-me que arte e moral não se confundem. Lembre-se de Shakespeare e do texto 'O que é arte?' de Tolstoy. Esse acusa aquele de não edificar nenhum valor moral em suas peças. A tradição deu bem maior razão a Shakespeare do que a Tolstoy. Veja o exemplo de Wilde.
-- Não se trata de moralismo, de edificar valores, trata-se apenas de não tentar enganar o leitor, seja de que forma for. É o escritor ter respeito pelo leitor tal como se ele mesmo leitor fosse ele escritor.
-- Você não sabe o que diz. Isso não tem o menor sentido. É ridículo.
-- Se alguém põe seus pensamentos ou sentimentos num papel, sempre há o desejo, por mais recôndito que seja, de ser lido, um dia... Caso contrário, por que diabos fá-lo-ia?
-- Falo do que predomina. Algumas pessoas escrevem predominantemente por uma necessidade de ordem interna. Se elas não escrevessem, como diz Rilke sobre os verdadeiros escritores, morreriam.
-- E esse moralismo ao escrever a outrem? Parece-me que arte e moral não se confundem. Lembre-se de Shakespeare e do texto 'O que é arte?' de Tolstoy. Esse acusa aquele de não edificar nenhum valor moral em suas peças. A tradição deu bem maior razão a Shakespeare do que a Tolstoy. Veja o exemplo de Wilde.
-- Não se trata de moralismo, de edificar valores, trata-se apenas de não tentar enganar o leitor, seja de que forma for. É o escritor ter respeito pelo leitor tal como se ele mesmo leitor fosse ele escritor.
-- Você não sabe o que diz. Isso não tem o menor sentido. É ridículo.
23.8.03
Imprensa: Roberto Pompeu de Toledo
Já falei anteriormente do clown shakesperiano Diogo Mainardi (pego-me elogiando-o?). Na mesma revista, entretanto, há algo mais refinado, de espírito lúcido, e só superado na imprensa brasileira por alguns poucos, entre os quais Boris Fausto, que escreve na Folha de S. Paulo. Mas Boris Fausto não é jornalista, é historiador, o que talvez torne a comparação inválida.
Roberto Pompeu de Toledo tem uma das melhores colunas jornalísticas do Brasil. Seu domínio da língua é peculiar. Sua escrita é refinada, sem solavancos. Ao lermos-lo sentimo-nos em contato com algo de bom nível, bem pensado, cuidadoso.
Vejamos como Toledo termina a coluna desta semana:
"Os Estados Unidos, que antes da guerra esnobaram a ONU quanto puderam, na semana passada articulavam junto ao Conselho de Segurança uma resolução que permitisse o envio de uma força internacional ao Iraque, para ajudar na segurança do país. Antes da guerra o governo Bush dizia que, o.k., se o Conselho de Segurança aprovasse uma intervenção armada no Iraque, tanto melhor, mas que, caso não aprovasse – como não aprovou –, paciência, os Estados Unidos se encarregariam do serviço sozinhos. Os EUA de George W. Bush faziam questão de alardear que não estavam nem aí para a opinião dos outros países nem para a lei internacional. Agora convidam os soldados de outros países para morrer com os deles. Eles estão brincando. Só podem estar brincando. Ainda mais que acalentam a idéia de atrair tropas da ONU, mas manter o comando sobre elas, assim como o monopólio das decisões políticas e econômicas sobre o Iraque. À prepotência e à incompetência, os Estados Unidos de Bush acrescentam o escárnio."
É isso.
Roberto Pompeu de Toledo tem uma das melhores colunas jornalísticas do Brasil. Seu domínio da língua é peculiar. Sua escrita é refinada, sem solavancos. Ao lermos-lo sentimo-nos em contato com algo de bom nível, bem pensado, cuidadoso.
Vejamos como Toledo termina a coluna desta semana:
"Os Estados Unidos, que antes da guerra esnobaram a ONU quanto puderam, na semana passada articulavam junto ao Conselho de Segurança uma resolução que permitisse o envio de uma força internacional ao Iraque, para ajudar na segurança do país. Antes da guerra o governo Bush dizia que, o.k., se o Conselho de Segurança aprovasse uma intervenção armada no Iraque, tanto melhor, mas que, caso não aprovasse – como não aprovou –, paciência, os Estados Unidos se encarregariam do serviço sozinhos. Os EUA de George W. Bush faziam questão de alardear que não estavam nem aí para a opinião dos outros países nem para a lei internacional. Agora convidam os soldados de outros países para morrer com os deles. Eles estão brincando. Só podem estar brincando. Ainda mais que acalentam a idéia de atrair tropas da ONU, mas manter o comando sobre elas, assim como o monopólio das decisões políticas e econômicas sobre o Iraque. À prepotência e à incompetência, os Estados Unidos de Bush acrescentam o escárnio."
É isso.
19.8.03
Feminino 5
Sandra
Minha mãe sempre dizia-me: "jamais fale com estranhos."
Chegamos àquela rua quando meus pais se separaram. Tinha eu então 10 anos de idade. Em casa, os recursos eram parcos, meus irmãos estavam desempregados, e minha mãe taciturna. Ainda posso vê-la, hoje, 30 anos depois, de frente para o tanque, para o fogão, estendendo nossas roupas. Era uma santa mulher, tudo fez por nós.
O bairro era modesto, porém não violento, e as pessoas ajudavam-se na medida do possível. Eu costumava brincar com os meninos e meninas de lá todas as noites, na rua. Éramos muitos, uns quinze, nalgumas noites mais, noutras menos.
Eu sempre fui a mais danada e brincalhona de todas. Pulando amarelinha, jogando conversa fora, dançando, eu sempre me destacava.
Passaram-se quatro anos. Daquela menina travessa, começou a formar-se uma bela mulher. Pernas grossas, quadris largos, seios empinados. Orgulhava-me em mostrar essa transformação. Ficava envaidecida quando eu passava pela rua, indo comprar pão ou no caminho da escola, e os rapazes viravam o rosto para me admirar. Eu não olhava para eles, mas sentia um misto de prazer e timidez em ser o centro da atenção, os olhares cheios de desejo, desejo esse que eu só vim a entender algum tempo depois.
Cada vez mais eu ia ganhando formas. Minhas roupas ficavam mais curtas, adorava mostrar-me, adorava meu corpo.
Numa noite, jogando vôlei na rua, passa um carro de vidros escuros. Paramos o jogo e levantamos o fio de estender roupa que usávamos como rede, para que o carro pudesse seguir caminho. No entanto, quando está ao meu lado, o vidro abre-se e vejo um belo homem, o mais lindo que eu havia visto até então. Meu coração disparou, e eu mal conseguia esconder minha aflição. Ele olhou-me de cima a baixo, de uma forma tão incisiva e sedutora que mesmo quando ele fechou o vidro e seguiu adiante fiquei a pensar nele o resto da noite e no dia seguinte.
Não tinha a menor expectativa de vê-lo novamente. Ledo engano. Na noite seguinte, vejo o carro novamente (eu jamais esqueceria aquele carro). Meu coração disparou sim, vê-lo novamente foi a confirmação, assim pensei, de que ele tinha interessado-se por mim. Fiquei feliz, pus-me à vista dele, tentando valorizar meu corpo.
Ele passou pela minha frente, devagar. Eu ansiosa e com medo, procurei ver-lhe o rosto, mas o vidro escuro não permitia. Para minha tristeza ele segue. Um pouco adiante, porém, parou, abriu o vidro e chamou-me. Foi-me impossível não ir.
O que se seguiu a partir daí foi estranho, meu estado de espírito mudou, fiquei inebriada, como que guiada para algo que eu sabia bem o que era, apenas não podia entender bem.
Cheguei ao lado da janela do motorista. Mostrou-me um belo sorriso. Ele era lindo. Perguntou algumas coisas de mim e eu dele. Convidou-me para sentar no banco do passageiro. Confesso que me lembrei dos conselhos de minha mãe, mas algo invencível fez-me entrar naquele carro. Ele fechou os vidros, e o que aconteceu era inevitável: uma força que eu não havia sentido até então me impelia.
Não me lembro de detalhes. Acho que foi bom. Acho que todos do bairro ficaram sabendo. Nunca mais vi aquele carro. Tampouco esperei vê-lo novamente.
Minha mãe sempre dizia-me: "jamais fale com estranhos."
Chegamos àquela rua quando meus pais se separaram. Tinha eu então 10 anos de idade. Em casa, os recursos eram parcos, meus irmãos estavam desempregados, e minha mãe taciturna. Ainda posso vê-la, hoje, 30 anos depois, de frente para o tanque, para o fogão, estendendo nossas roupas. Era uma santa mulher, tudo fez por nós.
O bairro era modesto, porém não violento, e as pessoas ajudavam-se na medida do possível. Eu costumava brincar com os meninos e meninas de lá todas as noites, na rua. Éramos muitos, uns quinze, nalgumas noites mais, noutras menos.
Eu sempre fui a mais danada e brincalhona de todas. Pulando amarelinha, jogando conversa fora, dançando, eu sempre me destacava.
Passaram-se quatro anos. Daquela menina travessa, começou a formar-se uma bela mulher. Pernas grossas, quadris largos, seios empinados. Orgulhava-me em mostrar essa transformação. Ficava envaidecida quando eu passava pela rua, indo comprar pão ou no caminho da escola, e os rapazes viravam o rosto para me admirar. Eu não olhava para eles, mas sentia um misto de prazer e timidez em ser o centro da atenção, os olhares cheios de desejo, desejo esse que eu só vim a entender algum tempo depois.
Cada vez mais eu ia ganhando formas. Minhas roupas ficavam mais curtas, adorava mostrar-me, adorava meu corpo.
Numa noite, jogando vôlei na rua, passa um carro de vidros escuros. Paramos o jogo e levantamos o fio de estender roupa que usávamos como rede, para que o carro pudesse seguir caminho. No entanto, quando está ao meu lado, o vidro abre-se e vejo um belo homem, o mais lindo que eu havia visto até então. Meu coração disparou, e eu mal conseguia esconder minha aflição. Ele olhou-me de cima a baixo, de uma forma tão incisiva e sedutora que mesmo quando ele fechou o vidro e seguiu adiante fiquei a pensar nele o resto da noite e no dia seguinte.
Não tinha a menor expectativa de vê-lo novamente. Ledo engano. Na noite seguinte, vejo o carro novamente (eu jamais esqueceria aquele carro). Meu coração disparou sim, vê-lo novamente foi a confirmação, assim pensei, de que ele tinha interessado-se por mim. Fiquei feliz, pus-me à vista dele, tentando valorizar meu corpo.
Ele passou pela minha frente, devagar. Eu ansiosa e com medo, procurei ver-lhe o rosto, mas o vidro escuro não permitia. Para minha tristeza ele segue. Um pouco adiante, porém, parou, abriu o vidro e chamou-me. Foi-me impossível não ir.
O que se seguiu a partir daí foi estranho, meu estado de espírito mudou, fiquei inebriada, como que guiada para algo que eu sabia bem o que era, apenas não podia entender bem.
Cheguei ao lado da janela do motorista. Mostrou-me um belo sorriso. Ele era lindo. Perguntou algumas coisas de mim e eu dele. Convidou-me para sentar no banco do passageiro. Confesso que me lembrei dos conselhos de minha mãe, mas algo invencível fez-me entrar naquele carro. Ele fechou os vidros, e o que aconteceu era inevitável: uma força que eu não havia sentido até então me impelia.
Não me lembro de detalhes. Acho que foi bom. Acho que todos do bairro ficaram sabendo. Nunca mais vi aquele carro. Tampouco esperei vê-lo novamente.
16.8.03
Diálogo
-- Preciso esquecer para não perder a razão.
-- Esquecer o que acontece a si é como ignorar o que se viveu.
-- Se eu não o fizer, enlouqueço.
-- Se tu o fizeres, tirarás da tua vida aquilo que te fez e aquilo que te é mais pessoal e intransferível, além de fonte inesgotável de ensinamentos e lições: tuas experiências.
-- Apenas os sadios esquecem.
-- Esquecer o que acontece a si é como ignorar o que se viveu.
-- Se eu não o fizer, enlouqueço.
-- Se tu o fizeres, tirarás da tua vida aquilo que te fez e aquilo que te é mais pessoal e intransferível, além de fonte inesgotável de ensinamentos e lições: tuas experiências.
-- Apenas os sadios esquecem.
15.8.03
Masculino 4
Arthur
Embora nada esperasse daquilo, Arthur aceitou os conselhos de sua irmã e foi a um psicólogo.
-- Mas só se for pela Unimed! Jamais pagaria pra um desconhecido apenas ouvir, se tanto, sobre minha vida!
Maninha procurou no catálogo, ligou para alguns profissionais e escolheu o que lhe fora mais recomendado.
Primeira sessão. Arthur fala da família, da faculdade (estuda Engenharia Civil). Sentia-se angustiado, sem saber o que fazer da vida. Sentia-se cobrado pela família. O doutor apenas o olhava.
Segunda sessão. "Boa noite," disse o doutor. Calou-se. Arthur segue o relato de suas dores, seus sonhos, sua vida. "Terminamos por aqui." Levanta-se e aperta a mão do "médico de almas", que já o esperava na porta do consultório, uma das mãos segurando a maçaneta da porta, oferecendo-lhe a saída.
Terceira sessão. "Boa noite." Arthur senta-se e por um instante quis reclamar do silêncio constante do médico. Acabou apenas dizendo, como que querendo convencer a si mesmo de que estar ali é importante, que embora desagradável o silêncio, ele estava disposto a vencer todas as dificuldades em prol de uma melhora de seu estado espiritual. Para sua surpresa, o doutor pronunciou-se:
-- Você não acha que é hora de buscar sua própria vida e esquecer um pouco sua casa? Não acha que essas cobranças da família deveriam ser apenas ignoradas? Por que não se tranca em seu quarto e faz o que tem de fazer e ignora quem o atrapalha?
Quarta sessão. "Boa noite." Por pouco, Arthur não foi àquela sessão. No entanto, a louvável força de vontade fê-lo mais uma vez sentar-se naquela poltrona, sempre de frente para o psicólogo. Recomeçou a falar de suas angústias, seus sonhos cada vez menos realizáveis, seus amores, suas dores, mágoas e ressentimentos. Para sua surpresa, o doutor interveio novamente:
-- Marcelo, como eu havia dito na sessão passada...
Foi quando Arthur levantou-se enraivecido, foi até ao psicólogo e começou a esmurrá-lo, ensandecido:
-- Meu nome é Arthur, seu filho da puta! é Arthur! Entendeu bem!? é Arthur!
Não houve quem conseguisse pará-lo.
Embora nada esperasse daquilo, Arthur aceitou os conselhos de sua irmã e foi a um psicólogo.
-- Mas só se for pela Unimed! Jamais pagaria pra um desconhecido apenas ouvir, se tanto, sobre minha vida!
Maninha procurou no catálogo, ligou para alguns profissionais e escolheu o que lhe fora mais recomendado.
Primeira sessão. Arthur fala da família, da faculdade (estuda Engenharia Civil). Sentia-se angustiado, sem saber o que fazer da vida. Sentia-se cobrado pela família. O doutor apenas o olhava.
Segunda sessão. "Boa noite," disse o doutor. Calou-se. Arthur segue o relato de suas dores, seus sonhos, sua vida. "Terminamos por aqui." Levanta-se e aperta a mão do "médico de almas", que já o esperava na porta do consultório, uma das mãos segurando a maçaneta da porta, oferecendo-lhe a saída.
Terceira sessão. "Boa noite." Arthur senta-se e por um instante quis reclamar do silêncio constante do médico. Acabou apenas dizendo, como que querendo convencer a si mesmo de que estar ali é importante, que embora desagradável o silêncio, ele estava disposto a vencer todas as dificuldades em prol de uma melhora de seu estado espiritual. Para sua surpresa, o doutor pronunciou-se:
-- Você não acha que é hora de buscar sua própria vida e esquecer um pouco sua casa? Não acha que essas cobranças da família deveriam ser apenas ignoradas? Por que não se tranca em seu quarto e faz o que tem de fazer e ignora quem o atrapalha?
Quarta sessão. "Boa noite." Por pouco, Arthur não foi àquela sessão. No entanto, a louvável força de vontade fê-lo mais uma vez sentar-se naquela poltrona, sempre de frente para o psicólogo. Recomeçou a falar de suas angústias, seus sonhos cada vez menos realizáveis, seus amores, suas dores, mágoas e ressentimentos. Para sua surpresa, o doutor interveio novamente:
-- Marcelo, como eu havia dito na sessão passada...
Foi quando Arthur levantou-se enraivecido, foi até ao psicólogo e começou a esmurrá-lo, ensandecido:
-- Meu nome é Arthur, seu filho da puta! é Arthur! Entendeu bem!? é Arthur!
Não houve quem conseguisse pará-lo.
14.8.03
Citação 3
"A experiência moderna banal apaga o presente. Vivemos, geralmente, em trânsito entre um passado que é objeto de saudade (ou, pior, que vale como currículo para confirmar nossas potencialidades futuras) e um anseio pelos dias melhores que virão. O presente não tem, em nossa cultura, uma dignidade própria; ele é a fração de segundo em que o atleta de salto triplo pisa na areia para impulsionar-se e pular mais longe."
(Contardo Caligaris)
(Contardo Caligaris)
11.8.03
Imprensa: Diogo Mainardi
Mainardi é amiúde o campeão de cartas da Veja. É ou adorado ou odiado. E é também, numa perspectiva por que não dizer "dialética", adorado e odiado conjuntamente, como podemos ver na seguinte carta de uma preclara leitora: "sempre aguardo ansiosa Veja chegar aqui em casa, e a primeira coisa que faço é ler a coluna do Mainardi. Ah, esse homem odiável que eu tanto amo!".
Analisar os textos de Mainardi não chega a ser difícil, até porque nesta semana ele mesmo mostrou-se com louvável clareza: disse-nos claramente qual é o seu viés, ou estilo, ou parti pris, e ao mesmo tempo o seu caráter, quando escreve. Tudo se resume a duas lições. Citemos-las:
Lição número 1: não escreva.
Lição número 2: se realmente tiver de escrever, "trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés".
Eu acrescentaria mais algumas lições que com certeza aplicam-se a ele:
Lição 3: ser contra o Brasil, principalmente contra o pouco que o brasileiro se orgulha no Brasil.
Lição 4: abusar de falácias, dos mais variados tipos, sendo as mais comuns no caso dele a non sequitur e a petição de princípio.
Lição 5: dar uns tapinhas em si mesmo, mas só às vezes e de leve, para que a antipatia do leitor transforme-se numa espécie de comiseração. (Isso também confunde o leitor, que fica sem saber ao certo se o colunista é empáfia pura ou também se inclui no rol daqueles que ele ataca. Dessa ambigüidade do autor advém o sentimento ambivalente de alguns leitores.)
Licão 6: Esforçar-se por escrever algo interessante de forma bissexta. A antipatia do leitor deve render-se a suposta competência do colunista.
Lição 7: falar de viagens, lugares onde morou (sempre na Europa e nos EUA), de livros que leu e escreveu.
Em resumo: é ser arrogante, meter o pé e dar bofetadas irônicas em tudo que possa chocar, usando-se sempre de falácias, e, para que a antipatia não lhe custe a própria cabeça, fazer mea-culpa de tempos em tempos, sem jamais se esquecer de mostrar que o próprio colunista tem um suposto pedigree.
Isso é Mainardi.
Analisar os textos de Mainardi não chega a ser difícil, até porque nesta semana ele mesmo mostrou-se com louvável clareza: disse-nos claramente qual é o seu viés, ou estilo, ou parti pris, e ao mesmo tempo o seu caráter, quando escreve. Tudo se resume a duas lições. Citemos-las:
Lição número 1: não escreva.
Lição número 2: se realmente tiver de escrever, "trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés".
Eu acrescentaria mais algumas lições que com certeza aplicam-se a ele:
Lição 3: ser contra o Brasil, principalmente contra o pouco que o brasileiro se orgulha no Brasil.
Lição 4: abusar de falácias, dos mais variados tipos, sendo as mais comuns no caso dele a non sequitur e a petição de princípio.
Lição 5: dar uns tapinhas em si mesmo, mas só às vezes e de leve, para que a antipatia do leitor transforme-se numa espécie de comiseração. (Isso também confunde o leitor, que fica sem saber ao certo se o colunista é empáfia pura ou também se inclui no rol daqueles que ele ataca. Dessa ambigüidade do autor advém o sentimento ambivalente de alguns leitores.)
Licão 6: Esforçar-se por escrever algo interessante de forma bissexta. A antipatia do leitor deve render-se a suposta competência do colunista.
Lição 7: falar de viagens, lugares onde morou (sempre na Europa e nos EUA), de livros que leu e escreveu.
Em resumo: é ser arrogante, meter o pé e dar bofetadas irônicas em tudo que possa chocar, usando-se sempre de falácias, e, para que a antipatia não lhe custe a própria cabeça, fazer mea-culpa de tempos em tempos, sem jamais se esquecer de mostrar que o próprio colunista tem um suposto pedigree.
Isso é Mainardi.
10.8.03
9.8.03
Masculino 3
Virgílio
É comum eu ir nas horas vagas, que são muitas, a livrarias. Busco acima de tudo o prazer visual, táctil e olfativo da pletora de livros, já que as novidades mesmas já as sabemos de antemão na internet. Há também um certo lado masoquista e também o pedagógico. Explico-me: dar-me conta de que o Eclesiastes está certo -- "fazer livros não tem fim, e muito estudo cansa o corpo" -- e fazer-me direcionar o espírito para o que me é importante de facto.
Pois bem. De posse de alguns exemplares, sentei-me à mesinha que nos permite folhear os livros antes de comprá-los. Ouço uma graciosa voz feminina atrás da prateleira:
-- Sim, "Física", do Resnick.
Olho em busca da dona da voz. Uma menina de seus 18 anos. Cabelos pretos lisos. Rabo-de-cavalo. Pele alva com duas ou três espinhas. Muito bela...
Ela me olha, mas não pára de falar. Há muita gente em torno dela. Continuo a ler um belo exemplar das obras completas de Lima Barreto. Num instante ela senta-se à mesma mesinha, ficando de frente pra mim. Olho-a novamente e ela me olha.
Noto que ela tem consigo uma quantidade de livros tal que mal consegue com eles. A mãe traz outro tanto. Eram todos livros de Física. Duas coleções, uma mais básica e outra mais elevada. Era-lhe suficiente apenas a básica, mas disse:
-- Não me importo que seja menos didática. Quero a mais completa.
A mãe, que parecia nunca ter lido um livro na vida, muito menos de Física, tentava orientar a filha mais pelo prazer de vê-la interessada pela Ciência, e pelo orgulho. Olho um pouco para o lado e lá estava o pai. Carequinha, baixinho, jeito de quem passa as tardes de domingo em casa sendo rodeado por moscas, enquanto lê jornal.
Nessa dúvida de natureza hamletiana ficou a mocinha: o mais aprofudado e menos didático, ou o mais didático e menos aprofundado? Liga para o professor. O professor parecia mais alheio a essa diferença de edições do que eu mesmo.
-- Mas, professor, quem quer tentar o ITA tem que estudar pelo melhor livro possível. E eu não me importo com ser menos didático. Vi aqui que esse mais fácil não tem Efeito Doppler.
Depois voltaram o pai e a mãe para saber se a perolazinha da família já se tinha decidido. Não ainda...
-- Bem, a coleção mais aprofundada custa R$350,00. A outra, R$250,00. Se é pra gastar esse dinheiro todo que gaste com o melhor.
O pai, coitado, que era quem iria pagar a conta da genialidade da filha, não escondeu a aflição. Mas o orgulho venceu: viu no seu cérebro da imagem de sua filha ganhando prêmios, sendo respeitada, o Sucesso, a Glória.
Compraram o mais caro, menos didático, com menos exercícios, porém mais aprofundado.
Não estou contando essa historinha besta assim por razão alguma, a esmo, ao acaso, à toa. Conto-lhes porque eu pensei que eu iria papar o geniozinho, e ela foi embora sem olhar mais pra mim. Caralho.
É comum eu ir nas horas vagas, que são muitas, a livrarias. Busco acima de tudo o prazer visual, táctil e olfativo da pletora de livros, já que as novidades mesmas já as sabemos de antemão na internet. Há também um certo lado masoquista e também o pedagógico. Explico-me: dar-me conta de que o Eclesiastes está certo -- "fazer livros não tem fim, e muito estudo cansa o corpo" -- e fazer-me direcionar o espírito para o que me é importante de facto.
Pois bem. De posse de alguns exemplares, sentei-me à mesinha que nos permite folhear os livros antes de comprá-los. Ouço uma graciosa voz feminina atrás da prateleira:
-- Sim, "Física", do Resnick.
Olho em busca da dona da voz. Uma menina de seus 18 anos. Cabelos pretos lisos. Rabo-de-cavalo. Pele alva com duas ou três espinhas. Muito bela...
Ela me olha, mas não pára de falar. Há muita gente em torno dela. Continuo a ler um belo exemplar das obras completas de Lima Barreto. Num instante ela senta-se à mesma mesinha, ficando de frente pra mim. Olho-a novamente e ela me olha.
Noto que ela tem consigo uma quantidade de livros tal que mal consegue com eles. A mãe traz outro tanto. Eram todos livros de Física. Duas coleções, uma mais básica e outra mais elevada. Era-lhe suficiente apenas a básica, mas disse:
-- Não me importo que seja menos didática. Quero a mais completa.
A mãe, que parecia nunca ter lido um livro na vida, muito menos de Física, tentava orientar a filha mais pelo prazer de vê-la interessada pela Ciência, e pelo orgulho. Olho um pouco para o lado e lá estava o pai. Carequinha, baixinho, jeito de quem passa as tardes de domingo em casa sendo rodeado por moscas, enquanto lê jornal.
Nessa dúvida de natureza hamletiana ficou a mocinha: o mais aprofudado e menos didático, ou o mais didático e menos aprofundado? Liga para o professor. O professor parecia mais alheio a essa diferença de edições do que eu mesmo.
-- Mas, professor, quem quer tentar o ITA tem que estudar pelo melhor livro possível. E eu não me importo com ser menos didático. Vi aqui que esse mais fácil não tem Efeito Doppler.
Depois voltaram o pai e a mãe para saber se a perolazinha da família já se tinha decidido. Não ainda...
-- Bem, a coleção mais aprofundada custa R$350,00. A outra, R$250,00. Se é pra gastar esse dinheiro todo que gaste com o melhor.
O pai, coitado, que era quem iria pagar a conta da genialidade da filha, não escondeu a aflição. Mas o orgulho venceu: viu no seu cérebro da imagem de sua filha ganhando prêmios, sendo respeitada, o Sucesso, a Glória.
Compraram o mais caro, menos didático, com menos exercícios, porém mais aprofundado.
Não estou contando essa historinha besta assim por razão alguma, a esmo, ao acaso, à toa. Conto-lhes porque eu pensei que eu iria papar o geniozinho, e ela foi embora sem olhar mais pra mim. Caralho.
8.8.03
Filosofia: Michel Eyquem de Montaigne (1533 – 1592)
Montaigne é um escritor de sabedoria. Não posso vê-lo de outra forma. Ele, junto com Nietzsche, Freud, Ralph Waldo Emerson, Schopenhauer e mais alguns poucos, trata de algo que os franceses chamam de savoir-vivre [saber viver].
Estas são as 57 máximas postas por Montaigne nas vigas de madeira de sua biblioteca. A maioria delas remonta à época em que o ensaísta estava escrevendo "L'Apologie de Raymond Sebond", ou seja, por volta de 1575.
1) Le bout du savoir pour l'homme est de considérer comme bon ce qui arrive, et pour le reste d'être sans souci. [O resultado do saber para o homem é considerar como bom o que lhe vem, e com o mais ficar sem preocupação.]
-Eccl.-
2) Dieu a donné à l'homme le goût de connaître pour le tourmenter. [Deus deu ao homem o gosto pelo conhecimento para atormentá-lo.]
-Eccl.-
3) Le vent gonfle les outres vides, l'outrecuidance les hommes sans jugement. [O vento infla os que são vazios; a presunção, os homens sem julgamento.]
-Stobée, Sentences-
4) Tout ce qui est sous le soleil a même fortune et loi. [Tudo que está sob o sol possui a mesma fortuna e lei.]
-Eccl.,9-
5) La vie la plus douce, c'est de ne penser à rien. [A vida mais doce é não pensar em nada.]
-Sophocle, Ajax, 552-
6) Ce n'est pas plus ce cette façon que de celle-là ou que d'aucune des deux. [Não mais dessa maneira do que daquela ou de nehuma das duas.]
-Sextus Empiricus, hypotyposes, I, 19-
7) Du grand et du petit monde des choses que Dieu a faites en si grand nombre, la notion est en nous. [Do grande e do pequeno mundo de coisas que Deus fez em tão grande número, a noção está em nós.]
-Eccl.-
8) Car je vois que tous, tant que nous sommes, nous ne sommes rien de plus que des fantômes ou une ombre légère. [Por eu ver tudo, que tanto quanto nós somos, nós não somos nada mais que fantasmas ou uma sombra fugidia.]
-Sophocle, Ajax, 124, dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 188-
9) Ô malheureux esprits des hommes! Ô coeurs aveugles! En quelles ténêbres de la vie, et dans quels grands périls s'écoule ce tout petit peu de temps que nous avons. [Ó infelizes espíritos dos homens! Ó corações cegos! Em qual escuridão da vida, e em que perigos passamos o pequeno tempo que temos.]
-Lucrèce, De natura rerum, II, 14-
10) Celui qui d'aventure se prend pour un grand homme, le premier prétexte l'abattra complètement. [Aquele que se apega por aventura a um grande homem, pelo primeiro pretexto será abatido.]
-Euripide, dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 187-
11) Toutes les choses avec le ciel, la terre et la mer, ne sont rien auprès de la totalité du grand tout. [Todas as coisas inclusive o céu, a terra e o mar, não são nada frente a totalidade do grande todo.]
-Lucrèce, De natura rerum, VI, 678-
12) As-tu vu un homme qui se figure sage? Un dément donnera plus que lui à espérer. [Viste um homem que parecia sábio? Um louco dará mais motivos que ele para esperar algo.]
-Prov., 26, XXVI, 12-
13) Puisque tu ignores comment l'âme est unie au corps, tu ne connais pas l'oeuvre de Dieu. [Por não conheceres como a alma está unida ao corpo, tu não conheces a obra de Deus.]
-Eccl., XI, 5-
14) Cela peut être et cela peut ne pas être. [Aquilo pode ser e aquilo pode não ser.]
-Sextus Empiricus, Hypotypose, I, 21-
15) Le bon est admirable. [O bom é admirável.]
-Platon, Cratyle-
16) L'homme est d'argile. [O homem é de argila.]
-inconnu-
17) Ne soyez point sages à vos propres yeux. [Não sejais jamais sábios a vossos próprios olhos.]
-Saint Paul, Epître aux Romain, XII, 6-
18) La superstition obéit à l'orgueil comme à son père. [A superstição obedece ao orgulho como a seu pai.]
-Stobée, De superbia, sermo, XXII, p. 189-
19) Dieu ne laisse personne d'autre que lui-même s'enorgueillir. [Deus não permite ninguém além dele mesmo orgulhar-se.]
-Hérodote, VII, 10-
20) Ne crains ni ne souhaite ton dernier jour. [Não temas nem desejes teu último dia.]
-Martial, Èpigrammes, X, 47-
21) Homme, tu ne sais si ceci ou cela te convient plus, ou l'un et l'autre également. [Homem, tu não sabes se isto ou aquilo que convêm mais, ou um e outro igualmente.]
-Eccl., XI, 6-
22) Je suis homme, je considère que rien d'humain ne m'est étranger. [Sou homem, considero que nada que é humano seja-me estranho.]
-Térence, Heautontimorumenos, I, i-
23) Ne soit pas plus sage qu'il ne faut, de peur d'être stupide. [Não sejas mais sábio que o necessário, por medo de ser tolo.]
-Eccl., VII, 17-
24) L'homme qui présume de son sçavoir ne sçait pas encore ce que c'est que sçavoir. [O homem que exagera sobre seu saber não sabe ainda o que é o saber.]
-Saint Paul, Épître aux Corinthiens, VIII, 2- (Traduction de Montaigne)
25) L'homme qui n'est rien, s'il pense estre quelque chose, se séduit soymesmes et se trompe. [O homem que é nada, se ele pensa ser alguma coisa, seduz a si mesmo e se ilude.]
-Saint Paul, Épître aux Galates, VI, 3- (Traduction de Montaigne)
26) Ne soyez pas plus sage qu'il ne faut, mais soyez sobrement sage. [Não sejas mais sábios que o necessário, mas sejas sobriamente sábios.]
-Saint Paul, Épître aux Romains, XII, 3- (Traduction de Montaigne)
27) Aucun homme n'a su, ni ne saura rien de certain. [Nenhum homem soube, nem saberá nada com certeza.]
-Xénophane, pris dans Sextus Empiricus-
28) Qui sait si vivre est ce qu'on appelle mourir, et si mourir c'est vivre? [Quem sabe se viver é aquilo que se chama morrer, e se morrer é viver?]
-Euripide, cité par Stobée, sermon 119, éd. de 1559, p. 609-
29) Toutes les choses sont trop difficiles pour que l'homme puisse les comprendre. [Todas as coisas são muito difíceis para que o homem as possa compreender.]
-Eccl., I-
30) On peut dire beaucoup de paroles dans un sens et dans l'autre. [Pode-se dizer muitas palavras num sentido ou noutro.]
-Homère, Iliade, XX, 249-
31) Le genre humain est excessivement avide de récits. [O gênero humano é excessivamente ávido por histórias.]
-Lucrèce, De natura rerum, IV, 598-
32) Quelle inanité dans les choses! [Que futilidade há nas coisas!]
-Perse, I, i-
33) Partout vanité! [Tudo é em vão!]
-Eccl., I, 2-
34) Garder la mesure, observer la limite et suivre la nature. [Guardar a medida, observar o limite, e seguir a natureza.]
-Lucain, Pharsale, II, 381-
35) Pourquoi te glorifier, terre et cendre? [Por que te glorificares, terra e cinzas?]
-Ecclésiastique, X, 9-
36) Malheur à vous qui êtes sages à vos propres yeux! [Tragédia a vós que sois sábios a vossos próprios olhos!]
-Isaïe, V, 21-
37) Jouis agréablement du présent, le reste est en dehors de toi. [Aproveite com prazer o presente, o mais está além de ti.]
-inconnu-
38) À tout raisonnement on peut opposer un raisonnement d'égale force. [A todo reaciocínio podemos opor um raciocícinio de igual força.]
-Sextus Empiricus, Hypotypose, I, 6 et 27-
39) Notre esprit erre dans les ténèbres et ne peut, aveugle qu'il est, discerner le vrai.
-Michel de l'Hospital- [Nosso espírito vaga na trevas e nao pode, cego que é, discernir a verdade.]
40) Dieu a fait l'homme semblable à l'ombre, de laquelle qui jugera quand par l'éloignement de la lumière elle sera évanouie? [Deus fez o homem semelhante à sombra, daquela que julgará quando à distância da luz será desvanecida?]
-Eccl.- (Traduction de Montaigne)
41) Il n'y a rien de certain que l'incertitude, et rien plus misérable et plus fier que l'homme. [Nada há mais certo que a incerteza, e nada mais miserável e mais orgulhoso que o homem.]
-Pline, Histoire naturelle, II, 7- (Traduction de Montaigne)
42) De toutes les oeuvres de Dieu, rien n'est plus inconnu à n'importe quel homme que la trace du vent. [De todas as obras de Deus, nenhuma é mais desconhecida e menos valorizada por qualquer homem que o rastro do vento.]
-Eccl., XI-
43) Chacun des dieux et des hommes a ses préférences. [Cada deus e cada homem possui suas preferências.]
-Euripide, Hippolyte, 104-
44) L'opinion que tu as de ton importance te perdra, parce que tu te crois quelqu'un. [A opinião que tu tens de tua importância te perderás, porque tu crês que és alguém.]
-Ménandre, dans Stobée, éd. de 1559, p. 188-
45) Les hommes sont tourmentés par l'opinion qu'ils ont des choses, non par les choses mêmes. [Os homens são atormentados pela opinião que têm das coisas, não pelas coisas mesmas.]
-Épictète, Enchiridion, X, dans Stobée, CXVII, éd. de 1559, p. 598- (Traduction de Montaigne)
46) Il est bien que le mortel ait des pensées qui ne s'élèvent pas au-dessus des hommes. [É bom que o mortal não tenha pensamentos que o elevem acima dos homens.]
-Euripide, Colchide, pris dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 188-
47) Pourquoi fatiguer ton esprit d'éternels projets qui le dépassent? [Por que fatigar teu espírito com eternos projetos que vão além dele?]
-Horace, Odes, II, xi, ii-
48) Les jugements du Seigneur sont un profond abîme. [Os julgamentos do Senhor são um abismo profundo.]
-Psalm., 35, XXXV, 7-
49) Je ne décide rien. [Eu não decido nada.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, I-
50) Je ne comprends pas. [Eu não compreendo.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 22-
51) Je suspends mon jugement. [Eu suspendo meu julgamento.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 23-
52) J'examine. [Eu examinio.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 26-
53) En ayant pour guides la coutume et les sens. [Tendo por guias o costume e os sentidos.]
-inconnu-
54) Par le raisonnement alternatif. [Pelo raciocínio alternativo.]
-inconnu-
55) Je ne puis comprendre. [Não posso compreender.]
-Sextus Empiricus, passim.-
56) Rien de plus. [Nada a mais.]
-inconnu-
57) Sans pencher d'un côté. [Sem inclinar-se para um lado.]
-inconnu-
Estas são as 57 máximas postas por Montaigne nas vigas de madeira de sua biblioteca. A maioria delas remonta à época em que o ensaísta estava escrevendo "L'Apologie de Raymond Sebond", ou seja, por volta de 1575.
1) Le bout du savoir pour l'homme est de considérer comme bon ce qui arrive, et pour le reste d'être sans souci. [O resultado do saber para o homem é considerar como bom o que lhe vem, e com o mais ficar sem preocupação.]
-Eccl.-
2) Dieu a donné à l'homme le goût de connaître pour le tourmenter. [Deus deu ao homem o gosto pelo conhecimento para atormentá-lo.]
-Eccl.-
3) Le vent gonfle les outres vides, l'outrecuidance les hommes sans jugement. [O vento infla os que são vazios; a presunção, os homens sem julgamento.]
-Stobée, Sentences-
4) Tout ce qui est sous le soleil a même fortune et loi. [Tudo que está sob o sol possui a mesma fortuna e lei.]
-Eccl.,9-
5) La vie la plus douce, c'est de ne penser à rien. [A vida mais doce é não pensar em nada.]
-Sophocle, Ajax, 552-
6) Ce n'est pas plus ce cette façon que de celle-là ou que d'aucune des deux. [Não mais dessa maneira do que daquela ou de nehuma das duas.]
-Sextus Empiricus, hypotyposes, I, 19-
7) Du grand et du petit monde des choses que Dieu a faites en si grand nombre, la notion est en nous. [Do grande e do pequeno mundo de coisas que Deus fez em tão grande número, a noção está em nós.]
-Eccl.-
8) Car je vois que tous, tant que nous sommes, nous ne sommes rien de plus que des fantômes ou une ombre légère. [Por eu ver tudo, que tanto quanto nós somos, nós não somos nada mais que fantasmas ou uma sombra fugidia.]
-Sophocle, Ajax, 124, dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 188-
9) Ô malheureux esprits des hommes! Ô coeurs aveugles! En quelles ténêbres de la vie, et dans quels grands périls s'écoule ce tout petit peu de temps que nous avons. [Ó infelizes espíritos dos homens! Ó corações cegos! Em qual escuridão da vida, e em que perigos passamos o pequeno tempo que temos.]
-Lucrèce, De natura rerum, II, 14-
10) Celui qui d'aventure se prend pour un grand homme, le premier prétexte l'abattra complètement. [Aquele que se apega por aventura a um grande homem, pelo primeiro pretexto será abatido.]
-Euripide, dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 187-
11) Toutes les choses avec le ciel, la terre et la mer, ne sont rien auprès de la totalité du grand tout. [Todas as coisas inclusive o céu, a terra e o mar, não são nada frente a totalidade do grande todo.]
-Lucrèce, De natura rerum, VI, 678-
12) As-tu vu un homme qui se figure sage? Un dément donnera plus que lui à espérer. [Viste um homem que parecia sábio? Um louco dará mais motivos que ele para esperar algo.]
-Prov., 26, XXVI, 12-
13) Puisque tu ignores comment l'âme est unie au corps, tu ne connais pas l'oeuvre de Dieu. [Por não conheceres como a alma está unida ao corpo, tu não conheces a obra de Deus.]
-Eccl., XI, 5-
14) Cela peut être et cela peut ne pas être. [Aquilo pode ser e aquilo pode não ser.]
-Sextus Empiricus, Hypotypose, I, 21-
15) Le bon est admirable. [O bom é admirável.]
-Platon, Cratyle-
16) L'homme est d'argile. [O homem é de argila.]
-inconnu-
17) Ne soyez point sages à vos propres yeux. [Não sejais jamais sábios a vossos próprios olhos.]
-Saint Paul, Epître aux Romain, XII, 6-
18) La superstition obéit à l'orgueil comme à son père. [A superstição obedece ao orgulho como a seu pai.]
-Stobée, De superbia, sermo, XXII, p. 189-
19) Dieu ne laisse personne d'autre que lui-même s'enorgueillir. [Deus não permite ninguém além dele mesmo orgulhar-se.]
-Hérodote, VII, 10-
20) Ne crains ni ne souhaite ton dernier jour. [Não temas nem desejes teu último dia.]
-Martial, Èpigrammes, X, 47-
21) Homme, tu ne sais si ceci ou cela te convient plus, ou l'un et l'autre également. [Homem, tu não sabes se isto ou aquilo que convêm mais, ou um e outro igualmente.]
-Eccl., XI, 6-
22) Je suis homme, je considère que rien d'humain ne m'est étranger. [Sou homem, considero que nada que é humano seja-me estranho.]
-Térence, Heautontimorumenos, I, i-
23) Ne soit pas plus sage qu'il ne faut, de peur d'être stupide. [Não sejas mais sábio que o necessário, por medo de ser tolo.]
-Eccl., VII, 17-
24) L'homme qui présume de son sçavoir ne sçait pas encore ce que c'est que sçavoir. [O homem que exagera sobre seu saber não sabe ainda o que é o saber.]
-Saint Paul, Épître aux Corinthiens, VIII, 2- (Traduction de Montaigne)
25) L'homme qui n'est rien, s'il pense estre quelque chose, se séduit soymesmes et se trompe. [O homem que é nada, se ele pensa ser alguma coisa, seduz a si mesmo e se ilude.]
-Saint Paul, Épître aux Galates, VI, 3- (Traduction de Montaigne)
26) Ne soyez pas plus sage qu'il ne faut, mais soyez sobrement sage. [Não sejas mais sábios que o necessário, mas sejas sobriamente sábios.]
-Saint Paul, Épître aux Romains, XII, 3- (Traduction de Montaigne)
27) Aucun homme n'a su, ni ne saura rien de certain. [Nenhum homem soube, nem saberá nada com certeza.]
-Xénophane, pris dans Sextus Empiricus-
28) Qui sait si vivre est ce qu'on appelle mourir, et si mourir c'est vivre? [Quem sabe se viver é aquilo que se chama morrer, e se morrer é viver?]
-Euripide, cité par Stobée, sermon 119, éd. de 1559, p. 609-
29) Toutes les choses sont trop difficiles pour que l'homme puisse les comprendre. [Todas as coisas são muito difíceis para que o homem as possa compreender.]
-Eccl., I-
30) On peut dire beaucoup de paroles dans un sens et dans l'autre. [Pode-se dizer muitas palavras num sentido ou noutro.]
-Homère, Iliade, XX, 249-
31) Le genre humain est excessivement avide de récits. [O gênero humano é excessivamente ávido por histórias.]
-Lucrèce, De natura rerum, IV, 598-
32) Quelle inanité dans les choses! [Que futilidade há nas coisas!]
-Perse, I, i-
33) Partout vanité! [Tudo é em vão!]
-Eccl., I, 2-
34) Garder la mesure, observer la limite et suivre la nature. [Guardar a medida, observar o limite, e seguir a natureza.]
-Lucain, Pharsale, II, 381-
35) Pourquoi te glorifier, terre et cendre? [Por que te glorificares, terra e cinzas?]
-Ecclésiastique, X, 9-
36) Malheur à vous qui êtes sages à vos propres yeux! [Tragédia a vós que sois sábios a vossos próprios olhos!]
-Isaïe, V, 21-
37) Jouis agréablement du présent, le reste est en dehors de toi. [Aproveite com prazer o presente, o mais está além de ti.]
-inconnu-
38) À tout raisonnement on peut opposer un raisonnement d'égale force. [A todo reaciocínio podemos opor um raciocícinio de igual força.]
-Sextus Empiricus, Hypotypose, I, 6 et 27-
39) Notre esprit erre dans les ténèbres et ne peut, aveugle qu'il est, discerner le vrai.
-Michel de l'Hospital- [Nosso espírito vaga na trevas e nao pode, cego que é, discernir a verdade.]
40) Dieu a fait l'homme semblable à l'ombre, de laquelle qui jugera quand par l'éloignement de la lumière elle sera évanouie? [Deus fez o homem semelhante à sombra, daquela que julgará quando à distância da luz será desvanecida?]
-Eccl.- (Traduction de Montaigne)
41) Il n'y a rien de certain que l'incertitude, et rien plus misérable et plus fier que l'homme. [Nada há mais certo que a incerteza, e nada mais miserável e mais orgulhoso que o homem.]
-Pline, Histoire naturelle, II, 7- (Traduction de Montaigne)
42) De toutes les oeuvres de Dieu, rien n'est plus inconnu à n'importe quel homme que la trace du vent. [De todas as obras de Deus, nenhuma é mais desconhecida e menos valorizada por qualquer homem que o rastro do vento.]
-Eccl., XI-
43) Chacun des dieux et des hommes a ses préférences. [Cada deus e cada homem possui suas preferências.]
-Euripide, Hippolyte, 104-
44) L'opinion que tu as de ton importance te perdra, parce que tu te crois quelqu'un. [A opinião que tu tens de tua importância te perderás, porque tu crês que és alguém.]
-Ménandre, dans Stobée, éd. de 1559, p. 188-
45) Les hommes sont tourmentés par l'opinion qu'ils ont des choses, non par les choses mêmes. [Os homens são atormentados pela opinião que têm das coisas, não pelas coisas mesmas.]
-Épictète, Enchiridion, X, dans Stobée, CXVII, éd. de 1559, p. 598- (Traduction de Montaigne)
46) Il est bien que le mortel ait des pensées qui ne s'élèvent pas au-dessus des hommes. [É bom que o mortal não tenha pensamentos que o elevem acima dos homens.]
-Euripide, Colchide, pris dans Stobée, De superbia, éd. de 1559, p. 188-
47) Pourquoi fatiguer ton esprit d'éternels projets qui le dépassent? [Por que fatigar teu espírito com eternos projetos que vão além dele?]
-Horace, Odes, II, xi, ii-
48) Les jugements du Seigneur sont un profond abîme. [Os julgamentos do Senhor são um abismo profundo.]
-Psalm., 35, XXXV, 7-
49) Je ne décide rien. [Eu não decido nada.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, I-
50) Je ne comprends pas. [Eu não compreendo.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 22-
51) Je suspends mon jugement. [Eu suspendo meu julgamento.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 23-
52) J'examine. [Eu examinio.]
-Sextus Empiricus, Hyotyposes, 26-
53) En ayant pour guides la coutume et les sens. [Tendo por guias o costume e os sentidos.]
-inconnu-
54) Par le raisonnement alternatif. [Pelo raciocínio alternativo.]
-inconnu-
55) Je ne puis comprendre. [Não posso compreender.]
-Sextus Empiricus, passim.-
56) Rien de plus. [Nada a mais.]
-inconnu-
57) Sans pencher d'un côté. [Sem inclinar-se para um lado.]
-inconnu-
6.8.03
Masculino 2
Adriano
Do outro lado da rua uma multidão aglutina-se ao redor de algo. Aproximo-me. Vejo um homem morto. Mulato, nos seus vinte e cinco anos, de bermuda, alpargatas e sem camisa. Furos no tórax. Pergunto a alguém: "como foi isso?". "Ele estava dormindo no banco da praça e levou três facadas. Era um ladrãozinho daqui do bairro. Na certa desentendeu-se com os amigos na hora de repartir o produto de algum roubo", respondeu, por um lado contrariado por eu ter-lhe quebrado uma espécie de barreira individual, por outro, satisfeito por poder repassar a alguém toda a sua ciência do fato.
Chega uma equipe de televisão. Poucos minutos depois, o pessoal do IML e a Polícia. O perito analisa o corpo (era a décima vez que ele fazia isso naquele dia?). Feita a análise, tira as luvas e diz para o repórter, sem olhar para ele: "pode filmar."
O repórter de repente ganha vida, a voz torna-se atraente, o rosto ganha um ar grave e ao mesmo tempo amistoso. "A Polícia ainda não tem pistas sobre o autor do crime. Com imagens de Marcos e apoio técnico de Henrique, Alfredo para o programa X.", assim termina a reportagem. Com rapidez impressionante, o semblante do repórter fecha-se novamente, os auxiliares técnicos desligam os fios e equipamentos, todos dão as costas para o corpo, e vão embora em direção ao carro.
O perito do IML joga o corpo dentro de uma espécie de baú de plástico. O baú é carregado para o rabecão. A porta é fechada, com força. Apenas algumas crianças que comiam pipoca acompanham com os olhos o rabecão, até ele sumir, ao dobrar a esquina.
Retomo meu trajeto. Ao chegar no lugar onde meu carro estava parado, pergunto ao flanelinha: "viu o que aconteceu?". Ele sorriu, jeito tímido e alegre de sempre, e disse: "aquilo lá é um ladrãozinho aqui da área."
Apenas eu vi naquele corpo algo que já foi um ser humano.
Do outro lado da rua uma multidão aglutina-se ao redor de algo. Aproximo-me. Vejo um homem morto. Mulato, nos seus vinte e cinco anos, de bermuda, alpargatas e sem camisa. Furos no tórax. Pergunto a alguém: "como foi isso?". "Ele estava dormindo no banco da praça e levou três facadas. Era um ladrãozinho daqui do bairro. Na certa desentendeu-se com os amigos na hora de repartir o produto de algum roubo", respondeu, por um lado contrariado por eu ter-lhe quebrado uma espécie de barreira individual, por outro, satisfeito por poder repassar a alguém toda a sua ciência do fato.
Chega uma equipe de televisão. Poucos minutos depois, o pessoal do IML e a Polícia. O perito analisa o corpo (era a décima vez que ele fazia isso naquele dia?). Feita a análise, tira as luvas e diz para o repórter, sem olhar para ele: "pode filmar."
O repórter de repente ganha vida, a voz torna-se atraente, o rosto ganha um ar grave e ao mesmo tempo amistoso. "A Polícia ainda não tem pistas sobre o autor do crime. Com imagens de Marcos e apoio técnico de Henrique, Alfredo para o programa X.", assim termina a reportagem. Com rapidez impressionante, o semblante do repórter fecha-se novamente, os auxiliares técnicos desligam os fios e equipamentos, todos dão as costas para o corpo, e vão embora em direção ao carro.
O perito do IML joga o corpo dentro de uma espécie de baú de plástico. O baú é carregado para o rabecão. A porta é fechada, com força. Apenas algumas crianças que comiam pipoca acompanham com os olhos o rabecão, até ele sumir, ao dobrar a esquina.
Retomo meu trajeto. Ao chegar no lugar onde meu carro estava parado, pergunto ao flanelinha: "viu o que aconteceu?". Ele sorriu, jeito tímido e alegre de sempre, e disse: "aquilo lá é um ladrãozinho aqui da área."
Apenas eu vi naquele corpo algo que já foi um ser humano.
5.8.03
Literatura: Charles Baudelaire 2
A une passante
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair... puis la nuit ! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?
Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais !
Tradução: A uma transeunte
A rua ensudercedora em volta de mim gritava.
Alta, delgada, em grande aflição, dor majestosa,
Uma mulher passa, de forma suntuosa
Altiva, agitando a corrente e a bainha;
Rápida e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, eu bebia, tenso como um disparatado,
No seu olho, céu lívido onde nasce o furacão,
Doçura que fascina e prazer que mata.
Um relâmpago... depois a noite! – Beleza fugidia
Cujo olhar fez-me repentinamente renascer,
Ver-te-ei novamente apenas na eternidade?
Noutra parte, bem longe daqui! tardiamente! talvez jamais!
Pois ignoro aonde tu foges, tu não sabes onde vou,
Ó tu que eu teria amado, ó tu que o saberia!
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair... puis la nuit ! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?
Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais !
Tradução: A uma transeunte
A rua ensudercedora em volta de mim gritava.
Alta, delgada, em grande aflição, dor majestosa,
Uma mulher passa, de forma suntuosa
Altiva, agitando a corrente e a bainha;
Rápida e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, eu bebia, tenso como um disparatado,
No seu olho, céu lívido onde nasce o furacão,
Doçura que fascina e prazer que mata.
Um relâmpago... depois a noite! – Beleza fugidia
Cujo olhar fez-me repentinamente renascer,
Ver-te-ei novamente apenas na eternidade?
Noutra parte, bem longe daqui! tardiamente! talvez jamais!
Pois ignoro aonde tu foges, tu não sabes onde vou,
Ó tu que eu teria amado, ó tu que o saberia!
3.8.03
Literatura: Charles Baudelaire (1821–1867)
Madrigal triste
QUE m’importe que tu sois sage?
Sois belle! et sois triste! Les pleurs
Ajoutent un charme au visage,
Comme le fleuve au paysage;
L’orage rajeunit les fleurs.
Je t’aime surtout quand la joie
S’enfuit de ton front terrassé;
Quand ton cœur dans l’horreur se noie;
Quand sur ton présent se déploie
Le nuage affreux du passé.
Je t’aime quand ton grand œil verse
Une eau chaude comme le sang;
Quand, malgré ma main qui te berce,
Ton angoisse, trop lourde, perce
Comme un râle d’agonisant.
J’aspire, volupté divine!
Hymne profond, délicieux!
Tous les sanglots de ta poitrine,
Et crois que ton cœur s’illumine
Des perles que versent tes yeux!
Je sais que ton cœur, qui regorge
De vieux amours déracinés,
Flamboie encor comme une forge,
Et que tu couves sous ta gorge
Un peu de l’orgueil des damnés;
Mais tant, ma chère, que tes rêves
N’auront pas reflété l’Enfer,
Et qu’en un cauchemar sans trêves,
Songeant de poisons et de glaives,
Éprise de poudre et de fer,
N’ouvrant à chacun qu’avec crainte,
Déchiffrant le malheur partout,
Te convulsant quand l’heure tinte,
Tu n’auras pas senti l’étreinte
De l’irrésistible Dégoût,
Tu ne pourras, esclave reine
Qui ne m’aimes qu’avec effroi,
Dans l’horreur de la nuit malsaine
Me dire, l’âme de cris pleine:
‘Je suis ton égale, ô mon Roi!’
Tradução livre
Que me importa que tu sejas sábia?
Sê bela! e sê triste! As lágrimas
Acrescentam charme ao rosto,
Como o rio à paisagem;
O temporal revitaliza as flores.
Amo-te sobretudo quando a alegria
Escapa de tua face sóbria;
Quando teu coração em horror perde-se;
Quando sobre teu presente espalham-se
As nuvens sombrias do passado.
Amo-te quando teu olho grande verte
Água quente como sangue;
Quando, apesar de minha mão que te embala,
Teu agonizar, pesado em demasia, devasta-te
Como a respiração crepitante de um moribundo.
Desejo, volúpia divina!
Hino profundo, adorável!
Todos os soluços de teu peito,
E creio que teu coração se ilumina
De pérolas que teus olhos vertem.
Sei que teu coração, que transborda
De antigos amores esmagados,
Flameja ainda como uma fornalha,
E que tu nutres em tua garganta
Um pouco do orgulho dos condenados à danação.
Mas tanto, querida, que teus sonhos
Não terão refletido o Inferno,
E que neles um pesadelo sem trégua,
Sonharão venenos e punhais,
Paixão de pó e de ferro.
Abrirão somente à cada aterrorizado,
Deslindarão a desgraça em todo lugar,
Estremecer-te-ão quando a hora chegar,
Tu não terás sentido o abraço
De Horror irresistível,
Tu não poderás, escrava rainha
Que somente amas com terror,
No horror da noite malsã
Dizer-me, a alma aos gritos:
“Eu sou tua igual, ó meu Rei!”
QUE m’importe que tu sois sage?
Sois belle! et sois triste! Les pleurs
Ajoutent un charme au visage,
Comme le fleuve au paysage;
L’orage rajeunit les fleurs.
Je t’aime surtout quand la joie
S’enfuit de ton front terrassé;
Quand ton cœur dans l’horreur se noie;
Quand sur ton présent se déploie
Le nuage affreux du passé.
Je t’aime quand ton grand œil verse
Une eau chaude comme le sang;
Quand, malgré ma main qui te berce,
Ton angoisse, trop lourde, perce
Comme un râle d’agonisant.
J’aspire, volupté divine!
Hymne profond, délicieux!
Tous les sanglots de ta poitrine,
Et crois que ton cœur s’illumine
Des perles que versent tes yeux!
Je sais que ton cœur, qui regorge
De vieux amours déracinés,
Flamboie encor comme une forge,
Et que tu couves sous ta gorge
Un peu de l’orgueil des damnés;
Mais tant, ma chère, que tes rêves
N’auront pas reflété l’Enfer,
Et qu’en un cauchemar sans trêves,
Songeant de poisons et de glaives,
Éprise de poudre et de fer,
N’ouvrant à chacun qu’avec crainte,
Déchiffrant le malheur partout,
Te convulsant quand l’heure tinte,
Tu n’auras pas senti l’étreinte
De l’irrésistible Dégoût,
Tu ne pourras, esclave reine
Qui ne m’aimes qu’avec effroi,
Dans l’horreur de la nuit malsaine
Me dire, l’âme de cris pleine:
‘Je suis ton égale, ô mon Roi!’
Tradução livre
Que me importa que tu sejas sábia?
Sê bela! e sê triste! As lágrimas
Acrescentam charme ao rosto,
Como o rio à paisagem;
O temporal revitaliza as flores.
Amo-te sobretudo quando a alegria
Escapa de tua face sóbria;
Quando teu coração em horror perde-se;
Quando sobre teu presente espalham-se
As nuvens sombrias do passado.
Amo-te quando teu olho grande verte
Água quente como sangue;
Quando, apesar de minha mão que te embala,
Teu agonizar, pesado em demasia, devasta-te
Como a respiração crepitante de um moribundo.
Desejo, volúpia divina!
Hino profundo, adorável!
Todos os soluços de teu peito,
E creio que teu coração se ilumina
De pérolas que teus olhos vertem.
Sei que teu coração, que transborda
De antigos amores esmagados,
Flameja ainda como uma fornalha,
E que tu nutres em tua garganta
Um pouco do orgulho dos condenados à danação.
Mas tanto, querida, que teus sonhos
Não terão refletido o Inferno,
E que neles um pesadelo sem trégua,
Sonharão venenos e punhais,
Paixão de pó e de ferro.
Abrirão somente à cada aterrorizado,
Deslindarão a desgraça em todo lugar,
Estremecer-te-ão quando a hora chegar,
Tu não terás sentido o abraço
De Horror irresistível,
Tu não poderás, escrava rainha
Que somente amas com terror,
No horror da noite malsã
Dizer-me, a alma aos gritos:
“Eu sou tua igual, ó meu Rei!”
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