25.10.03

Poesia: Vinícius de Moraes

Vinícius é subestimado. Quando o chamam de "poetinha", por vezes o que subjaz é o desprezo, e não o aspecto afetuoso do diminutivo.

É famoso o que Melo Neto disse a Vinícius: "se não for de amor, você não sabe fazer, né?"

Drummond considerava o poema que se segue como uma espécie de resumo da condição humana. A opinão, além de vir de uma autoridade no assunto, é acertada.

O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...