16.9.03

Feminino 6

Rita

Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Restamos eu, minha irmã de cinco e meu irmão de dezesseis anos. Quatro anos depois minha mãe trouxe outro homem para dentro de casa. Depois de alguns meses morando lá, ele veio à cama onde eu e meus irmãos dormíamos e estuprou-me.

Minha irmã fingiu dormir, mal conseguiu olhar. Meu irmão assistiu a tudo, olhos entreabertos, também fingindo dormir. Eu mal pude acreditar, fiquei paralisada, como um pedaço de carne, enquanto aquele homem gordo e velho estava em cima de mim. Quando terminou ele disse que fez antes aquilo que outros haveriam de fazer. Disse que eu nada dissesse a ninguém, sob pena de alguma retaliação por parte dele.

No dia seguinte contei à minha mãe. Ela disse que eu houvera sonhado. Depois disse que eu estava mentindo (o que é a mesma coisa). Depois ainda disse que eu queria estragar a felicidade dela: ela tinha já certa idade e não conseguiria arrumar outro homem.

Fiquei então sem saber o que fazer. Por um lado puni-lo, por outro estragar a relação de minha mãe.

Calei-me. Sofri em silêncio por minha mãe. Dois meses passaram-se. Ele chega de madrugada bêbado (o que vinha repetindo-se amiúde). Busca a mim na mesma cama. Mal pude esconder o horror. Começa a estuprar-me novamente. De repente um grito: meu irmão havia-lhe cravado uma faca nas costas.

Hoje visito meu irmão na cadeia. Minha irmã prostitui-se. Jamais consegui terminar meus estudos nem manter relações duradouras com homem algum. Minha mãe sumiu de nossas vidas. Dizem que vive com um guardador de carros em Recife.

Chamem isso de tragédia cotidiana familiar.