De tudo que eu já li em colunas jornalísticas da autoria de Olavo de Carvalho, este é o único tema que merece atenção: a paralaxe conceitual, o desacordo entre o que uma teoria diz e a situação concreta do autor da teoria.
Junto duas colunas numa só. Espero que tenha ficado inteligível.
"Quando um preso político alega que vive sob uma ditadura, sua situação confirma o que ele diz. Mas, quando o sr. István Mészáros declara que o capitalismo é totalitário porque obriga todo o mundo a produzir ou morrer, sua condição de acadêmico dispensado da produção para entregar-se a tarefas intelectuais é um flagrante desmentido da afirmativa.
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Chamo isso de paralaxe conceitual: o deslocamento entre o eixo visual do indivíduo real e o da perspectiva que enquanto criador de teorias ele projeta naquilo que escreve. Uma teoria assim concebida é puramente ficcional, no sentido estrito do termo. (...) Teorias como essa só podem ser contempladas como obras de arte (...). Inúteis como descrições da realidade, transportam-nos a um universo inventado que tem força persuasiva às vezes superior à de uma descrição da realidade.
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Ao longo das minhas aulas, tenho demonstrado, mediante a aplicação meticulosa do critério de auto-referência existencial, a estrutura nitidamente ficcional das filosofias de Maquiavel, Descartes, Locke, Hobbes, Hume, Kant, Hegel, e Marx, bem como das teorias neopragmatistas, relativistas e desconstrucionistas.
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Nicolau Maquiavel, por exemplo, cria uma fórmula de governo sem notar que, se aplicada, ela teria como primeira conseqüência previsível o assassinato de Nicolau Maquiavel como colaborador principal do “Príncipe” e, portanto, segundo ele mesmo, virtual suspeito número um de traição. Descartes diz que vai narrar um experimento psicológico real no instante mesmo em que coloca como sujeito desse experimento um “eu” abstrato, isolado das condições de tempo e espaço que lhe dariam alguma consistência narrativa. Meu livrinho está cheio desses homens de duas cabeças, mas nenhum deles se compara ao sr. Dawkins.
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É o seguinte. Em favor da sua tese da inexistência de causas finais na origem dos seres vivos, ele argumenta que unidades de informação randomicamente combinadas podem gerar seqüências significativas (mais ou menos como os átomos de Epicuro, movendo-se a esmo no espaço, formavam uma vaca por pura sorte). Para demonstrar essa possibilidade, ele concebeu um experimento informático que não sei se é tocante na sua candura ou revoltante na dose de candura que espera do público. Ele toma uma frase do Hamlet, “ Methinks it is like a weasel ” (“Acho que é como uma doninha”), e, num programa de computador criado para esse fim, vai produzindo milhares de combinações de letras até que, de repente, aparece de novo na tela: “ Methinks it is like a weasel. ” Nesse instante o sr. Dawkins exclama algo como: “A-ha! Quod erat demonstrandum! ” e se curva com exemplar modéstia ante os aplausos da platéia.
Werner Gitt observou que (...) as letras e espaços da frase não são unidades de informação anárquicas. São, precisamente, os sinais necessários para escrever “Methinks it is like a weasel” — seqüência que não se formou por si mesma mas foi escolhida pelo sr. Dawkins. A informação, portanto, não foi “gerada” pelas transformações, mas colocada lá antecipadamente para gerá-las. Em segundo lugar, noto eu que as letras na combinação não significam nada “em si mesmas”, mas só dentro do sistema, previamente dado, da língua inglesa — uma chave que também não foi gerada pelas transformações e sim admitida previamente como código da sua interpretação."