9.8.03

Masculino 3

Virgílio

É comum eu ir nas horas vagas, que são muitas, a livrarias. Busco acima de tudo o prazer visual, táctil e olfativo da pletora de livros, já que as novidades mesmas já as sabemos de antemão na internet. Há também um certo lado masoquista e também o pedagógico. Explico-me: dar-me conta de que o Eclesiastes está certo -- "fazer livros não tem fim, e muito estudo cansa o corpo" -- e fazer-me direcionar o espírito para o que me é importante de facto.

Pois bem. De posse de alguns exemplares, sentei-me à mesinha que nos permite folhear os livros antes de comprá-los. Ouço uma graciosa voz feminina atrás da prateleira:

-- Sim, "Física", do Resnick.

Olho em busca da dona da voz. Uma menina de seus 18 anos. Cabelos pretos lisos. Rabo-de-cavalo. Pele alva com duas ou três espinhas. Muito bela...

Ela me olha, mas não pára de falar. Há muita gente em torno dela. Continuo a ler um belo exemplar das obras completas de Lima Barreto. Num instante ela senta-se à mesma mesinha, ficando de frente pra mim. Olho-a novamente e ela me olha.

Noto que ela tem consigo uma quantidade de livros tal que mal consegue com eles. A mãe traz outro tanto. Eram todos livros de Física. Duas coleções, uma mais básica e outra mais elevada. Era-lhe suficiente apenas a básica, mas disse:

-- Não me importo que seja menos didática. Quero a mais completa.

A mãe, que parecia nunca ter lido um livro na vida, muito menos de Física, tentava orientar a filha mais pelo prazer de vê-la interessada pela Ciência, e pelo orgulho. Olho um pouco para o lado e lá estava o pai. Carequinha, baixinho, jeito de quem passa as tardes de domingo em casa sendo rodeado por moscas, enquanto lê jornal.

Nessa dúvida de natureza hamletiana ficou a mocinha: o mais aprofudado e menos didático, ou o mais didático e menos aprofundado? Liga para o professor. O professor parecia mais alheio a essa diferença de edições do que eu mesmo.

-- Mas, professor, quem quer tentar o ITA tem que estudar pelo melhor livro possível. E eu não me importo com ser menos didático. Vi aqui que esse mais fácil não tem Efeito Doppler.

Depois voltaram o pai e a mãe para saber se a perolazinha da família já se tinha decidido. Não ainda...

-- Bem, a coleção mais aprofundada custa R$350,00. A outra, R$250,00. Se é pra gastar esse dinheiro todo que gaste com o melhor.

O pai, coitado, que era quem iria pagar a conta da genialidade da filha, não escondeu a aflição. Mas o orgulho venceu: viu no seu cérebro da imagem de sua filha ganhando prêmios, sendo respeitada, o Sucesso, a Glória.

Compraram o mais caro, menos didático, com menos exercícios, porém mais aprofundado.

Não estou contando essa historinha besta assim por razão alguma, a esmo, ao acaso, à toa. Conto-lhes porque eu pensei que eu iria papar o geniozinho, e ela foi embora sem olhar mais pra mim. Caralho.