28.12.03

O saber pelo saber

Um homem de conhecimento cava abismos com os próprios pés, mãos e com tudo que lhe for possível, e o faz de maneira desesperada, pois sabe que o tempo é-lhe curto. Um homem de conhecimento não tem medo do amor não correspondido, de passar vergonha, de ser traído, muito menos da morte. Ele antes, de forma dissimulada, faz as situações chegarem ao limite possível, ao limite de sua dor que deveras sente, ao limite do que a experiência pode mostrar-lhe.

Tudo pela Ciência? O saber pelo saber? Sim, trata-se disso com certeza. Mas é-lhe fundamental o reconhecimento social: ele PRECISA ser tido como homem de conhecimento. Algo errado nisso? Creio que não, todos PRECISAMOS ser tidos como o que somos, ou como o que gostaríamos de ser. É uma das lutas fundamentais da vida. Quais as outras?

O grande problema de termos tipos minoritários, e o homem de conhecimento possui um tipo dos menos freqüentes, é a dificuldade em ser reconhecido e respeitado como tal. Não apenas porque as pessoas em geral são toscas (não há um grande livro que não coloque a maioria da humanidade como tosca), mas porque, para realizar-se como tal, o homem de conhecimento precisa de ÓCIO e RECURSOS. Repito aqui, de memória, a pergunta de Adorno: é possível imaginar Nietzsche trabalhando como operário da VW, algo como o que prega a CLT: 8 horas diárias e 44 horas semanais? Ele morreria "before than expected".