24.11.03

A explicação perdeu-se na dor

-- Então o senhor alega que sua família é culpada por esse surto psicótico?

-- O senhor precisa aceitar isso, doutor. É a mais límpida verdade. Já não tenho mais forças pra explicar. Há anos venho repetindo a mesma história. O que aconteceu hoje foi o ápice de um longuíssimo processo. Já não sei mais o que é certo, o que é errado. Minha cabeça pesa. As idéias estão enevoadas. Tenho certa dificuldade agora para raciocinar.

-- O senhor precisa de um tratamento. Está imaginando inimigos. Todos querem o seu bem. Vou encaminhar você para um colega de muita competência. Se ele não fosse competente, eu não o indicaria.

-- Doutor, o senhor não pode fazer isso comigo. Sou uma vítima! uma vítima! minha razão está sumindo... estou enlouquecendo... Precisa acreditar em mim!

-- Veja bem. Pela minha experiência nesses assuntos, pude notar que não existem vítimas, tudo é uma dinâmica em que os papéis não são definidos, mas se interpenetram. Não há bandidos nem vilões, há seres humanos que ora são vítimas; ora se vitimizam para conseguir atenção; e ora são vilões.

-- Doutor, sempre fui um homem respeitado, escrevo artigos científicos, tenho Doutorado até. Não pode achar que sou louco, que imagino coisas, que não sou vítima da omissão, da manipulação, da mentira, da mesquinhez, do sadismo de minha família!!! Não estou criando isso!!! Não estou usando a situação para chamar a atenção de ninguém!!! Eu preciso de ajuda!!! Eu estou pedindo ajuda!!!

-- Acalme-se. O senhor ainda não conseguiu convenver-me de nada disso que alega. Só vi acusações sem provas. O senhor pensa estar no centro do mundo.

-- Ora, seu canalha! Você pensa que é fácil reproduzir todos esses acontecimentos de anos e anos, cheios de sutilezas, de agressões, de decepções?! Canalha! Incompetente! Você não sabe de nada! Deveria ser preso! Incompetente!!! Por culpa de pessoas como você vários seres humanos têm a vida arruinada!!! Canalha!!!

Ouviu tudo aquilo impavidamente. Antes de virar as costas e sair pela porta, ainda deu um sorriso de canto de boca, e disse: "passar bem, senhor."