16.11.03

Obnubilado

Um corredor. Ao fim dele um quadro. Sem poder ver o que está na tela, desejo fortemente chegar a ele e conhecer seu conteúdo, bem de perto. Ando a passos largos. As paredes não se estreitam, como em parábolas narrativas kafkianas, mas alargam-se. À medida que me aproximo, o quadro vai ganhando contornos. Parece interessante, mas não tanto. O caminho, que era linear, abre-se cada vez mais. Forma-se um plano. A sensação primeira de falta de opções dá lugar a uma sensação de liberdade e essa, por sua vez, dá lugar a uma sensação de angústia. Quando chego bem perto do quadro já não o tenho em grande conta. Noto que a figura é tola, as cores são desagradáveis, o pintor não é talentoso. Reparo que estou no meio de um enorme plano, e no horizonte, por todos os lados, nuvens sugerem algo. Olho com desdém para o quadro e dou de ombros. Giro meu corpo 90 graus e vou em frente. Depois de dias caminhando, percebo o abismo. Tento retornar, e outro abismo. Vejo, muito longe, o quadro. Vejo nuvens sugerindo algo, no horizonte. Meus pés estão agora numa pequena porção de chão. Equilibro-me como posso. O abismo em derredor.