11.10.03

Diálogo 3

-- No verdadeiro amor, ama-se a essência da pessoa.

-- Não existe tal essência.

-- Existe sim. No verdadeiro amor, sabe-se aquilo que a pessoa era no momento da criação. O que Deus tinha em mente quando a criou. Alcança-se, parafraseando Hegel, o que Deus pensou antes de pôr o ser amado no mundo.

-- Ah, pára com isso. Amamos pessoas de carne e osso, com uma história de vida, com sonhos e frustrações, com êxitos e fracassos, com o modo de ver o mundo influenciado pela profissão, família e meio em geral no qual vive e viveu.

-- Não. Você não sabe o que é o amor. Ele faz-nos intuir essa essência, passamos através de toda essa casca criada pela vida e chegamos à alma do ser amado, e quando isso acontece é divino.

-- Bela ilusão a sua. Reconheço que é bela.

-- Não é ilusão. Sei que isso existe.

-- Sabe? Espera encontrar algo assim? Vai ficar sozinha por quanto tempo mais? "Não se unem almas, apenas corpos." Manuel Bandeira estava certo, pô.

-- Acontece com raridade. Talvez com uma freqüência maior do que aquela dita por Camus. Não duas ou três vezes por século. É raro. Eu daria tudo para ter essa sorte. Eu não deixo de aperfeiçoar meu espírito e minha sensibilidade. Não deixo de observar as pessoas. Perdoe-me a expressão, mas o ser a ser amado pode estar por perto...

-- Tá bom... Mal sabe você que os homens só pensam em sexo. A razão da vida de um homem chama-se "boceta". Tome isso como uma metonímia do interesse do homem: queremos uma mulher gostosa, e mais outra, e mais outra. Queremos tê-la. Queremos desfilar com ela. Mostrar para todos quem estamos comendo. Fazer inveja para os outros homens e atrair mais mulheres.

-- Atrair mais mulheres?

-- Sim. Não venha me dizer que você não sabe que as mulheres, ao ver-nos bem acompanhados, ficam como que curiosas, querendo saber quem é o cara que anda comendo fulana.

-- Oh. Lamentável. Lamentável. Lamentável.