Hábitos, por definição, não passam pelo crivo crítico da razão. Adotamos-los ou não. Mais preocupante ainda é quando nossos hábitos, mesmo após serem reprovados pelo crivo crítico da razão, ainda assim permanecem. Nesse caso eles talvez devam perder a denominação "hábito" e passarem a chamar-se "vício". É assim comigo: eu leio jornais e revistas. Pior: de várias partes do mundo, o que significa apenas ler a mesma coisa em diferentes versões e línguas, todas elas (as versões) igualmente superficiais. Impossível não me lembrar de Camus em "La Chute".
(Algumas pessoas surpreenderam-se quando viram-me mencionando Veja neste blog. Acham-na uma revista de péssimo nível. Concordo que ela o seja. Mas Veja é uma das 10 revistas mais lidas do mundo, e a mais lida do Brasil, o que torna a sua leitura quase que um dever de ofício. Mas não é isso apenas: o que mais me interessa em Veja não é o que ela traz, e sim analisá-la, fazer um discurso de caráter, se me permitem, "meta-Veja".)
Mas voltemos ao tema deste post, que não trata de Veja, e sim de algo de ainda pior nível. Na leitura de um jornal local de hoje, esbarrei com um texto horrível, de causar repugnância em qualquer pessoa de bom senso, escrito por um médico cearense. Foi o que me levou a escrever este post.
Como sabemos, todo texto ruim é feito a partir de uma série de clichês já testados e aprovados. São assim em geral (há sempre as exceções, ISSO DEVE SER BEM FRISADO) os artigos de membros da academia que escrevem para jornais locais, principalmente os profissionais da área médica e jurídica. Os exemplos abundam a cada dia, e não é preciso citar nomes nem fazer referências bibliográficas. É só abrir as páginas de opinião de O POVO ou de DIÁRIO DO NORDESTE. Recomendo o dia de domingo, o qual é um dia especial para essa gente.
As lições que esses seguem são:
1) buscar sempre uma palavra sinônima e supostamente mais erudita para por no lugar daquelas de uso corrente;
2) ter em mente que as idéias expostas, se é que haverá idéias expostas, podem ser simples, simplórias até, e que o importante é ter o artigo assinado no jornal e assim expor o próprio nome ao público;
3) mentir deslavadamente, de má-fé mesmo, exagerar as coisas em prol da tese ou idéia que se quer defender; ser unilateral, ser enviesado, tendencioso; alegar estar do lado da "sociedade". Lembrar-se da palavra mágica "sociedade". Por inverso: ser contra "os poderosos".
Com um artigo desses por mês em um grande jornal local você torna-se um homem honrado, respeitado, requerido para debates, congressos, seminários; seu nome estampará as placas de formatura, freqüentará as colunas sociais, será querido nas ruas, terá seu escritório ou consultório cheio.
Podem chamar essas lições de "O segredo do sucesso na sociedade alencarina."
Fortaleza é uma cidade provinciana.