A grande Arte causa admiração e não raramente põe-nos numa espécie de transe, palavra que é muito bem definida no Dicionário Houaiss como sendo um "estado de abstração ou de exaltação de alguém que se sente transportado para fora de si e do mundo sensível, e em sintonia com algo transcendente."
É algo assim que sinto quando ouço "Negra Sombra", cantada por Luz Casal. Escrevo este post ao som dela, após ouvi-la continuamente por mais de uma hora.
Eis a letra, em galego, língua próxima do castelhano, e portanto do espanhol (como sabem, o castelhano tornou-se sinônimo de língua espanhola porque foi do dialeto falado no reino de Castela, que tinha ascendência política sobre todos os demais, que se originou o espanhol moderno):
Cando penso que te fuches,
negra sombra que me asombras,
ó pé dos meus cabezales
tornas facéndome mofa.
Cando maxino que es ida,
no mesmo sol te me amostras,
i eres a estrela que brila,
i eres o vento que zoa.
Si cantan, es ti que cantas,
si choran, es ti que choras,
i es o marmurio do río
i es a noite i es a aurora.
En todo estás e ti es todo,
pra min i en min mesma moras,
nin me abandonarás nunca,
sombra que sempre me asombras.
Segue uma tradução livre desse belo poema musicado pela primeira vez em 1892, tornando-se então uma das mais tradicionais músicas galegas:
Quando penso que te foste,
negra sombra que me assombra,
aos pés de minhas estruturas,
retornas debochando-me
Quando imagino que tenhas ido
Sob o mesmo sol tu me mostras
E és a estrela que brilha
E és o vento que zune
Se cantam, és tu que cantas,
Se choram, és tu que choras,
E és o murmúrio do rio
E és a noite, e és a aurora.
Em tudo estás e tu és tudo
para mim e em mim mesma moras,
nem me abandonarás nunca,
sombra que sempre me assombra.