A vida não vinha sendo nada agradável para ela.
Muito abatida, entrou no ônibus. Era o penúltimo dia do ano, à tarde, e havia na cidade um clima de pressa, de pressa para o feriado chegar, de pressa para o ano acabar, de pressa para se livrar do passado e do presente (a idéia de que com o ano novo algo será novo predomina no imaginário do homem comum; daí a necessidade de criar símbolos e ritos que remetam a um recomeçar, a um renascer, a um reavaliar; posto de outra forma: trata-se da necessidade de manter a esperança, de dar ainda mais uma chance para si, para os outros e para a vida.)
O ônibus estava quase vazio. Cabisbaixa, sentou-se na primeira cadeira em frente à porta de entrada. Entre ela e o trocador, um vidro. Reparou seu rosto nele refletido com boa clareza. Usando-o como um espelho, começou a olhar-se profundamente.
Surpreendeu-se com o aspecto triste de sua face. Lamentou não ter mais a aparência de menina. Era bela, tinha um belo corpo, mas já não tinha o viço de antanho. O olhar triste, pensava ela, causava certa repulsa, talvez porque esse olhar cobrasse algo muito caro, e ninguém parecia estar disposto a bancar a dívida. Reparou que as maçãs do rosto estavam abatidas. Reparou também que sorria cada vez menos. Tentou então sorrir, mas o sorriso era forçado e triste. Os músculos da face pareciam se negar. Mesmo com o sol sobre si, não quis mudar de lugar. Ficou ali, parada como uma pedra, as mãos cruzadas por sobre a bolsa, olhando-se fixamente.
Uma série de pensamentos começaram então a vir-lhe à mente. Lembrou-se primeiramente dos amores. Amara de verdade até então apenas dois homens, mas as relações acabaram tragicamente, sempre para ela. Como havia sofrido! Como se sentia injustiçada e humilhada! Quanto de seu melhor foi dado em vão!
Lembrou-se da família. Vinha de uma família omissa, desestrurada e muito incompreensiva. Todos pareciam ignorá-la como indivíduo com características próprias. Todos a rotulavam disso ou daquilo, e sempre exigiam coisas impossíveis a ela, à personalidade dela. Jamais a ouviam, e portanto não a compreendiam. Quanta mágoa ela sentia! Quanta frustação já não lhe deram aqueles de quem tanto esperava!
Nesses pensamentos ia quando notou aproximar-se do local de descer. Sem se lavantar, deu o dinheiro para o cobrador. Sentiu uma repulsa dolorida quando esse, ao dar o troco, olhou com desejo para o seu decote. Precisou de um esforço físico grande para atravessar a roleta. Fez-se noite em seu espírito. Quando desceu do ônibus, atravessou a rua sem olhar para os lados. Jogada no asfalto, antes de morrer ainda lembrou da mãe e de tudo que poderia ter sido, e que não foi.