Sandra
Minha mãe sempre dizia-me: "jamais fale com estranhos."
Chegamos àquela rua quando meus pais se separaram. Tinha eu então 10 anos de idade. Em casa, os recursos eram parcos, meus irmãos estavam desempregados, e minha mãe taciturna. Ainda posso vê-la, hoje, 30 anos depois, de frente para o tanque, para o fogão, estendendo nossas roupas. Era uma santa mulher, tudo fez por nós.
O bairro era modesto, porém não violento, e as pessoas ajudavam-se na medida do possível. Eu costumava brincar com os meninos e meninas de lá todas as noites, na rua. Éramos muitos, uns quinze, nalgumas noites mais, noutras menos.
Eu sempre fui a mais danada e brincalhona de todas. Pulando amarelinha, jogando conversa fora, dançando, eu sempre me destacava.
Passaram-se quatro anos. Daquela menina travessa, começou a formar-se uma bela mulher. Pernas grossas, quadris largos, seios empinados. Orgulhava-me em mostrar essa transformação. Ficava envaidecida quando eu passava pela rua, indo comprar pão ou no caminho da escola, e os rapazes viravam o rosto para me admirar. Eu não olhava para eles, mas sentia um misto de prazer e timidez em ser o centro da atenção, os olhares cheios de desejo, desejo esse que eu só vim a entender algum tempo depois.
Cada vez mais eu ia ganhando formas. Minhas roupas ficavam mais curtas, adorava mostrar-me, adorava meu corpo.
Numa noite, jogando vôlei na rua, passa um carro de vidros escuros. Paramos o jogo e levantamos o fio de estender roupa que usávamos como rede, para que o carro pudesse seguir caminho. No entanto, quando está ao meu lado, o vidro abre-se e vejo um belo homem, o mais lindo que eu havia visto até então. Meu coração disparou, e eu mal conseguia esconder minha aflição. Ele olhou-me de cima a baixo, de uma forma tão incisiva e sedutora que mesmo quando ele fechou o vidro e seguiu adiante fiquei a pensar nele o resto da noite e no dia seguinte.
Não tinha a menor expectativa de vê-lo novamente. Ledo engano. Na noite seguinte, vejo o carro novamente (eu jamais esqueceria aquele carro). Meu coração disparou sim, vê-lo novamente foi a confirmação, assim pensei, de que ele tinha interessado-se por mim. Fiquei feliz, pus-me à vista dele, tentando valorizar meu corpo.
Ele passou pela minha frente, devagar. Eu ansiosa e com medo, procurei ver-lhe o rosto, mas o vidro escuro não permitia. Para minha tristeza ele segue. Um pouco adiante, porém, parou, abriu o vidro e chamou-me. Foi-me impossível não ir.
O que se seguiu a partir daí foi estranho, meu estado de espírito mudou, fiquei inebriada, como que guiada para algo que eu sabia bem o que era, apenas não podia entender bem.
Cheguei ao lado da janela do motorista. Mostrou-me um belo sorriso. Ele era lindo. Perguntou algumas coisas de mim e eu dele. Convidou-me para sentar no banco do passageiro. Confesso que me lembrei dos conselhos de minha mãe, mas algo invencível fez-me entrar naquele carro. Ele fechou os vidros, e o que aconteceu era inevitável: uma força que eu não havia sentido até então me impelia.
Não me lembro de detalhes. Acho que foi bom. Acho que todos do bairro ficaram sabendo. Nunca mais vi aquele carro. Tampouco esperei vê-lo novamente.