10.9.03

Masculino 5

André

Em frente à minha casa há uma avenida. Seguindo por essa avenida no sentido oposto ao da praia, chamado sentido praia-sertão, alguns poucos quilômetros depois, no segundo semáforo, dobro à esquerda e estou defronte à casa de minha pequena.

Como temos três anos de namoro, pode-se imaginar quantas vezes percorri esse trajeto. O que não se pode imaginar facilmente é o que há ao longo dele: meninas de catorze anos, se tanto, à beira da pista, oferecendo-se por grana.

São sempre as mesmas. Paupérrimas. Em trajes curtos: apenas um pequeno short de tecido fino, o que permite que se veja a calcinha, e uma espécie de bustiê igualmente em tecido fino, o que permite que se note bem a forma dos seios. O semblante delas é sempre o mesmo: de braços cruzados, convidando com o olhar e com o corpo todos os motoristas. Às vezes papeando entre si, rosto alegre, às vezes contrariadas com o baixo movimento.

Terrível, não? Fere tudo aquilo que entendemos como dignidade da pessoa humana e como zelo especial pelas crianças, seres frágeis e que precisam de cuidados especiais por não terem ainda um correto discernimento para fazer escolhas responsáveis. Uma pessoa que paga uma menina dessas em troca de sexo só pode ser um crápula. Aproveita-se ignominiosamente da pobreza e da ingenuidade dessas crianças para satisfazer os próprios distúrbios sexuais. Vê a elas como animais que podem ser usados sem que ninguém reclame a favor delas.

Pois eu sou um crápula. O mais vil dos crápulas.

Na esquina em que ela estava dobrei. O local era ermo. Parei um pouco à frente, desliguei o carro e as luzes, e vi pelo retrovisor que ela vinha a mim. Debruçou-se na janela do carro e não disse nada. Olhou para mim esperando pela minha oferta.

-- Quanto é pra chupar? eu disse.

-- Cinco reais.

Não pude acreditar que fosse tão barato algo tão contra a moral. Uns quinze anos e com aquela tranqüilidade chupa por cinco reais?! Olho bem para o rosto e noto que ela era bela. Pobre sim. Mas a pouca idade ainda não havia permitido que a aspereza da vida pobre se refletisse no rosto, no olhar, no corpo. Ela era bela! Claro que o cabelo era descuidado, e a pele jamais recebera cremes. Mas a pobreza e o descuido ainda não haviam cobrado seu preço no que se refere ao fenótipo.

Não dormi bem naquela noite. Fiquei enojado de mim. Fiquei confuso. O sentimento de culpa, a censura, o superego freudiano, todos eles juntos massacravam-me. Queria justificar meu ato para mim, mas não conseguia. Comecei a perder o interesse pelo sexo. Lembrava-me do rosto dela e procurava notar algum traço de sofrimento, de dor pelo que a pobreza a obrigara a fazer, mas nada disso encontrava. Pior: parecia que era natural a ela, parecia até que ela gostava de alguma forma. Nada nela me recriminava. Durante um mês evitei minha namorada. Depois do cinema eu dizia: estou cansado. Nunca mais vi o sexo da mesma forma.