15.8.03

Masculino 4

Arthur

Embora nada esperasse daquilo, Arthur aceitou os conselhos de sua irmã e foi a um psicólogo.

-- Mas só se for pela Unimed! Jamais pagaria pra um desconhecido apenas ouvir, se tanto, sobre minha vida!

Maninha procurou no catálogo, ligou para alguns profissionais e escolheu o que lhe fora mais recomendado.

Primeira sessão. Arthur fala da família, da faculdade (estuda Engenharia Civil). Sentia-se angustiado, sem saber o que fazer da vida. Sentia-se cobrado pela família. O doutor apenas o olhava.

Segunda sessão. "Boa noite," disse o doutor. Calou-se. Arthur segue o relato de suas dores, seus sonhos, sua vida. "Terminamos por aqui." Levanta-se e aperta a mão do "médico de almas", que já o esperava na porta do consultório, uma das mãos segurando a maçaneta da porta, oferecendo-lhe a saída.

Terceira sessão. "Boa noite." Arthur senta-se e por um instante quis reclamar do silêncio constante do médico. Acabou apenas dizendo, como que querendo convencer a si mesmo de que estar ali é importante, que embora desagradável o silêncio, ele estava disposto a vencer todas as dificuldades em prol de uma melhora de seu estado espiritual. Para sua surpresa, o doutor pronunciou-se:

-- Você não acha que é hora de buscar sua própria vida e esquecer um pouco sua casa? Não acha que essas cobranças da família deveriam ser apenas ignoradas? Por que não se tranca em seu quarto e faz o que tem de fazer e ignora quem o atrapalha?

Quarta sessão. "Boa noite." Por pouco, Arthur não foi àquela sessão. No entanto, a louvável força de vontade fê-lo mais uma vez sentar-se naquela poltrona, sempre de frente para o psicólogo. Recomeçou a falar de suas angústias, seus sonhos cada vez menos realizáveis, seus amores, suas dores, mágoas e ressentimentos. Para sua surpresa, o doutor interveio novamente:

-- Marcelo, como eu havia dito na sessão passada...

Foi quando Arthur levantou-se enraivecido, foi até ao psicólogo e começou a esmurrá-lo, ensandecido:

-- Meu nome é Arthur, seu filho da puta! é Arthur! Entendeu bem!? é Arthur!

Não houve quem conseguisse pará-lo.