5.12.04

Visões da Vida

No muito bom livro "Por um Fio", do médico Drauzio Varella, podemos ter acesso a depoimentos de pessoas que sabem que vão morrer em breve, e que portanto emitem juízos pessimistas e, como negar?, realistas sobre a vida. Não há máscaras nem tergiversações. É tudo muito sóbrio.

Dois deles são emblemáticos, ambos proferidos por pacientes terminais.

De um espanhol de mais de oitenta anos, ex-combatente da Guerra Civil Espanhola, portador de um câncer de laringe:
"Perdi meus pais, minha companheira de cinqüenta e seis anos de casamento, dois irmãos mais velhos na guerra e meu filho do meio num desastre. A gente não encontra explicação para essas tragédias, mas com o tempo se conforma, na esperança de que ainda haverá de entender o verdadeiro significado delas. Precisei ficar velho para compreender que esse dia jamais chegará, porque a vida não tem sentido nenhum; nós é que insistimos diariamente em atribuir um significado a ela. "

De um pedreiro português aposentado que perdeu a esposa (por câncer) e não tinha filhos:
"Meu avô dizia que viver é como percorrer um caminho num desfiladeiro de onde partem tiros disparados a esmo. As balas podem acertar qualquer um, mas derrubam com mais freqüência os velhos, as crianças pequenas e os debilitados. Quando um corpo cai, alvejado, os outros são obrigados a se desviar e a continuar em frente, porque a ordem é seguir sempre em frente, mesmo sem saber aonde o caminho nos levará."