Adriano
Do outro lado da rua uma multidão aglutina-se ao redor de algo. Aproximo-me. Vejo um homem morto. Mulato, nos seus vinte e cinco anos, de bermuda, alpargatas e sem camisa. Furos no tórax. Pergunto a alguém: "como foi isso?". "Ele estava dormindo no banco da praça e levou três facadas. Era um ladrãozinho daqui do bairro. Na certa desentendeu-se com os amigos na hora de repartir o produto de algum roubo", respondeu, por um lado contrariado por eu ter-lhe quebrado uma espécie de barreira individual, por outro, satisfeito por poder repassar a alguém toda a sua ciência do fato.
Chega uma equipe de televisão. Poucos minutos depois, o pessoal do IML e a Polícia. O perito analisa o corpo (era a décima vez que ele fazia isso naquele dia?). Feita a análise, tira as luvas e diz para o repórter, sem olhar para ele: "pode filmar."
O repórter de repente ganha vida, a voz torna-se atraente, o rosto ganha um ar grave e ao mesmo tempo amistoso. "A Polícia ainda não tem pistas sobre o autor do crime. Com imagens de Marcos e apoio técnico de Henrique, Alfredo para o programa X.", assim termina a reportagem. Com rapidez impressionante, o semblante do repórter fecha-se novamente, os auxiliares técnicos desligam os fios e equipamentos, todos dão as costas para o corpo, e vão embora em direção ao carro.
O perito do IML joga o corpo dentro de uma espécie de baú de plástico. O baú é carregado para o rabecão. A porta é fechada, com força. Apenas algumas crianças que comiam pipoca acompanham com os olhos o rabecão, até ele sumir, ao dobrar a esquina.
Retomo meu trajeto. Ao chegar no lugar onde meu carro estava parado, pergunto ao flanelinha: "viu o que aconteceu?". Ele sorriu, jeito tímido e alegre de sempre, e disse: "aquilo lá é um ladrãozinho aqui da área."
Apenas eu vi naquele corpo algo que já foi um ser humano.