A questão interessa a todos. E para nós, brasileiros, reveste-se de uma importância especial: sentimo-nos menos inferiorizados quando encontramos nossos defeitos naqueles que julgamos superiores. Refiro-me à corrupção em países ricos, notadamente na Itália.
A história é bem conhecida: Silvio Berlusconi, o homem mais rico da Itália, tem contra si uma série de acusações, inclusive a de ser autor intelectual de crimes de homicídio. Ademais, ele é dono das três maiores empresas televisivas da Itália, e ao tornar-se primeiro-ministro passou também a controlar a RAI (três canais televisivos e várias rádios), o que dá a ele o virtual monopólio dos grandes meios de comunicação italianos. Berlusconi também é dono de um time de futebol (AC Milan) e da maior editora da Itália. Numa palavra: qualquer decisão que ele tome refletir-se-á nos seus próprios interesses, o que por si só o torna incompatível com o cargo que ocupa.
Berlusconi foi eleito em 2001, após uma campanha sobre a qual pairam sérias dúvidas quanto à lisura. Desde então, The Economist vem colocando em dúvida a adequação dele ao cargo, chegando mesmo a dizer que nenhum país que se preze pode ter um líder como o dono do Milan. Berlusconi logo em seguida ajuizou uma ação em um tribunal de Roma contra o hebdomadário inglês, alegando difamação.
Acontecimentos recentes fizeram a atenção da grande imprensa voltar-se mais uma vez para o premiê italiano. O primeiro foi a lei por ele proposta, e aprovada pelo congresso, a qual dá a ele imunidade criminal enquanto estiver em mandato (na verdade dá imunidade criminal ao ocupante do cargo de primeiro-ministro, qualquer que seja ele). Essa lei está sendo objeto de análise pela Corte Constitucional italiana (para analisar se ela é constitucional ou não, ou seja, se pode existir ou não frente à Constituição daquele país). O segundo acontecimento deu-se no seu discurso de posse na presidência semestral da UE: disse que um deputado alemão faria muito bem o papel de um nazista num filme então rodado na Itália.
Leio na Economist desta semana algo um tanto surpreendente: uma carta aberta do editor da revista para ele, Berlusconi, pedindo-lhe resposta para as acusações que lhe são feitas. Veremos se ele as responderá (já lho foi feito outras vezes, pela mesma revista).
Por fim devo citar uma interessante carta de um leitor:
SIR – You say that Silvio Berlusconi is an embarrassment because of his legal problems and not fit to represent Europe. But his new immunity law brings Italy into line with France. Jacques Chirac would be in prison for corruption were it not for his immunity while in office. Looking further back, Helmut Kohl, Valéry Giscard d'Estaing and numerous former Italian leaders went unpunished for illegal activities. Hence, Mr Berlusconi is quite representative of Europe's leaders.
Doug McClelland, Vancouver
Serviria de consolo à brasileira para os italianos essa carta, se eles não se orgulhassem tanto do premiê que possuem...