Chico é o nosso maior letrista. A inteligência e beleza de várias de suas canções; o cuidado com a linguagem; a capacidade de criar boas histórias; tudo isso enche meu espírito de alegria e, de uma maneira estranha, faz-me ter orgulho de ser brasileiro, mesmo em um momento (houve algum?) em que não há quase nenhuma razão para tal sentimento.
Reparem nesta letra:
O MEU GURI
(Chico Buarque, 1981)
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento d'ele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
A letra trata de um narrador contando a outrem sobre seu filho. Não sabemos se o narrador é homem ou mulher. A forma de se referir ao filho ("guri") faz parecer que é homem. Temos certeza, porém, de que se trata de uma pessoa muito simples, ingênua, paupérrima, que nem documentos possuía. O amor, orgulho e preocupação dele pelo filho ficam evidentes ao longo de toda a canção. E esse amor é o que há de mais lindo na letra. E esse amor faz-nos amar o narrador.
Ficamos sabendo que o filho nasceu em um momento inoportuno, tão inoportuno que nem nome, nem comida, havia para dar-lhe. Para surpresa de seu pai, contudo, o menino disse que venceria. Talvez o narrador não tenha levado a sério quando ouviu o filho dizer que "ainda chegava lá": as condições eram improváveis.
A união, a cumplicidade e troca de afeto entre os dois é comovente ("eu consolo ele, ele me consola / boto ele no colo pra ele me ninar). O filho traz presentes para o pai. Ajuda-o a obter os documentos civis.
O pai, simplório, não revela a seu interlocutor exatamente qual é a "profissão" do filho. Tem-no como trabalhador esforçado, e de muito sucesso. Tudo leva a crer que seja algo ligado ao tráfico ou jogo do bicho. O pai não sabe ou não quer admitir que sabe?