22.7.03

Feminino 3

Clara

"Eu sou uma das poucas pessoas que gosta de você sem exigir nada em troca. Provavelmente a única, à exceção de sua mãe."

Disse isso a ele por telefone, antes de nos falarmos pela última vez. Lembro-me de que ele foi um tanto quanto frio. Eu, sentindo-me pressionada pela frieza dele, sentindo-me pressionada e angustiada pela conversa que não se desenvolvia, proferi o citado acima. Não sei se me arrependo. Já se vão muitos anos...

Conhecemo-nos na faculdade de Direito. Ele era ambicioso. Queria ser advogado e não juiz ou promotor (um advogado bem sucedido ganha bem mais que um juiz ou promotor). Não era brilhante nem belo, mas era carismático. Tratava a todos respeitosamente. Dominava bem algo que podemos chamar de "maquiavelismo primário para o trato social". Era inofensivo, mas estava claro que chegaria onde queria chegar.

Conversávamos muito. Sempre. Não me lembro de nada que ele tenha dito que me tenha marcado. Apenas me lembro de imagens, dos gestos, dos movimentos, do sorriso, do olhar que queria denotar inteligência e perspicácia...

Vestia-se muito bem. Camisa de seda, calça de linho, sapato social. Tinha a pele muito bonita. Era agradável de se olhar, e de se relacionar, já que passava algo de familiar, de falsa proximidade, e de responsável, interessado pelo curso, pelas coisas que envolvem o universo jurídico.

Apaixonei-me sim. Acho que queria cuidar dele. Sempre o vi como uma criança. Não sei bem. Sempre me pareceu que ele precisava muito de mim. Que eu poderia fazê-lo crescer.

Depois de algum tempo de namoro, ele desinteressou-se de mim. Foi quando eu lhe liguei e disse a frase acima. Semanas depois, soube que ele estava saindo com a filha de um famoso advogado da área cível. Hoje ele é um dos advogados mais famosos da cidade. Acabei de ler no jornal que ele cuida dos interesses do filho do governador.